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Rachel 90 Anos Fortaleza,
Vergonha da cria

Fazer Rachel de Queiroz falar sobre O Quinze, escrito há 70 anos, é trombar com uma implacável autocrítica. A escritora não gosta do que escreve, evita reler obras e diz ter vergonha da própria bibliografia. Em entrevista ao O POVO, no apartamento onde mora, no Rio de Janeiro, fez a linha agridoce

Rachel diz que não é amarga mas cética e que a velhice é a grande pacificadora. "As paixões, as violências são coisas de jovem"

[12 11h25min]

Rio de Janeiro atípico, friorento, belas curvas escondidas por trás de brumas. No Leblon, bem próximo à praia, o edifício Rachel de Queiroz entrega a presença de sua mais ilustre moradora. O porteiro é cuidadoso. De cara, exige o documento de quem vem perturbar a paz da senhora caseira, sempre muito solicitada. Só então interfona, pede consentimento e permite o acesso ao elevador miúdo, confiscando a identificação do visitante até o momento do retorno. Aberta a porta, uma ampla sala de visita se apresenta, sobriamente decorada com seculares móveis de madeira envernizada e detalhes em palha. "Venho juntando essa mobília há mais de 50 anos, pegamos de uma família rica do Ceará'', revelou a anfitriã.

Com a ajuda da bengala e o amparo da enfermeira, a escritora trata de fazer as honras da casa. Primeiro, aponta os xodós: um imenso guarda-louça envidraçado e a mesa herdada do bisavô, perfeita para o ofício. Depois, o olho corre por quatro paredes. O gravador e amigo Oswaldo Goeldi assume a dianteira: é dele a maioria dos quadros que varrem a sala e o corredor. Ao lado, Manabu Mabe, Portinari, Djanira. "Quase tudo aqui foi presente. Na época em que comecei a escrever tínhamos muita amizade com artistas plásticos'', rememorou.

Por fim, uma paradinha no quarto. Cama e rede lado a lado, denunciando a origem cearense. Na parede, a imagem mais cultuada da casa, em preto e branco. ''Mamãe era muito bonita e eu tinha muita vaidade da beleza dela. Quando a gente ia sair ao invés de ficar me enfeitando me preocupava em enfeitá-la. Não se tratava de complexo, mas sempre fui meio despida de vaidade feminina. Acho que me projetei na mamãe nesse sentido'', admitiu. Até hoje, aliás, gabar-se não é o forte de Rachel de Queiroz. Nem o fato de ter escrito o primeiro livro aos 18 anos, encantando novos e treinados escritores, a faz amolecer. O Quinze, escrito em 1910, completa 70 anos sem que a autora o festeje. Ao contrário.

O POVO - Rachel, O Quinze está completando 70 anos. Que conjunto de fatores, na época, fez você pensar em escrever esse livro?
Rachel - Eu tinha 18 anos quando escrevi O Quinze. Na época, já vinha fazendo colaborações em jornais de Fortaleza. Eu fazia o romance secretamente, à noite. Não sabia bem o que ia fazer. Depois aprendi: você faz o plano da obra e dentro daquilo você executa o romance. Mas na época não sabia como se fazia romance. Comecei a escrever, a história foi saindo, eu não mostrava a ninguém. Depois comecei a mostrar umas partes pra mamãe, quando já tava mais adiantado... E quando o livro ficou pronto, não sabia como era esse negócio de editor nem nada. Aí papai disse: `contrate uma edição que eu pago'. E nós arranjamos uma tipografia, acho que foi tipografia Minerva, lá no Ceará. Então publicamos. O Antônio Sales, que me queria muito bem, foi quem me orientou na edição, na distribuição. E para surpresa minha o negócio estourou. Um tema difícil, seca, né? E eu não tratei daquela forma trágica do Rodolfo Teófilo, aqueles esqueletos ambulantes, aquela coisa, o realismo romântico, delirante que tinha imperado até então. Então mandamos o livro, o Sales me orientando, para uns críticos aqui do Rio: Tristão de Athayde, Agripino Guedes. As críticas foram favoráveis e daí a pouco o Graça Aranha me passou um telegrama entusiasmadíssimo. Eles tinham fundado a Fundação Graça Aranha e então o primeiro prêmio da Fundação foi para O Quinze. Isso lançou o livro nacionalmente e me lançou. Eu era muito metida... Em real, sempre achei que a precocidade não é uma virtude, porque se a gente tivesse esperado mais um pouco tinha saído melhor.

O POVO - Mas quais foram suas motivações para escrevê-lo
Rachel - Escrever é uma vocação. Algumas pessoas têm jeito pra escrever. Eu vivia no coração da seca, no sertão do Ceará. Na seca de 15 eu era muito pequena, tinha quatro anos. Mas a seca de 19 eu assisti, tinha nove anos. Eu era muito menina mas tinha a imagem daqueles retirantes do 15. Eles iam bater lá em casa, pedir ajuda e mamãe geralmente pegava um vestidinho meu pra dar a eles. Depois assisti a pequenas secas. Era um tema que tava ali na mão. No começo você é tímido, fica repetindo tipos que você já conhece, situações, mas depois começa a inventar, toma mais segurança no ofício.

O POVO - Por que você acha que O Quinze emplacou?
Rachel - O ambiente literário brasileiro da época era muito menor. E eu dei sorte porque os críticos gostaram muito. Minha preocupação sempre foi com uma singeleza sem literatice. Acho que foi isso que entusiasmou o Graça Aranha: eu não ter literatice de mocinha. Só o Graciliano (Ramos) que achou que era livro de homem, aliás desconfiou até que se provasse o contrário. Ele era um machista furioso. Depois se tornou um dos meus maiores amigos. Aliás, acho que foi o maior romancista da nossa geração, com grande vantagem sobre todos nós

O POVO - O Quinze veio de bate-pronto ou demorou a ser escrito?
Rachel - Acho que passei um ano para escrever O Quinze. Comecei a escrever devagarinho, à luz de lampeão, na fazenda. Escondida, às vezes. Não que fossem contra eu escrever, mas achavam que fazia mal pra saúde ficar acordada até tarde. Num certo sentido a gente tem um instinto. Eu andava fazendo umas poesias muito ruins, larguei e fui escrever romance. Mamãe (Clotilde Franklin de Queiroz) era muito entendida de literatura, foi a minha grande crítica, sempre. Dizia: `essa frase tá muito afetada, tá exagerado! Ela era muito severa. Mas era porque lia muito. Quando morreu deixou cinco estantes enormes cheias de livros. Quando me casei e tive minha filhinha que perdi com dois anos ela se chamava Clotilde também.

O POVO - Qual a leitura que hoje você faz da Conceição, a protagonista do livro?
Rachel - A Conceição era o que eu imaginava que fosse uma mocinha naquelas condições, que era muito parecida com a minha condição pessoal. Uma mocinha do interior, criada pela avó... No meu caso, era eu, minhas primas, minhas tias, eu muito amigas dos caboclos, das caboclas, madrinhas dos filhos dos nossos moradores, aquela coisa... A Conceição é uma personagem praticamente típica, né? Muito primária, muito esquemática. Eu ainda não tinha um trato pessoal pros personagens. Hoje ela não seria assim, seria muito muito mais complicada. Teria o que se chama de complexidade psicológica, seria uma personagem menos linear.

O POVO - O que a Rachel de hoje ainda traz da garota de 18 anos?
Rachel - Não tenho mais nada em comum com ela. Sou uma velha senhora cheia de experiência e amargura. A moça que escreveu O Quinze era ingênua, queria consertar o mundo, fazer uma porção de coisas. Vivia na cadeia. Fui presa aqui no Rio, lá no Ceará... A primeira vez papai e mamãe vieram me visitar, eu estava a própria Rosa Luxemburgo, toda importante, orgulhosa, né? Quando os dois chegaram e me viram começaram a rir. Um fotógrafo de um jornal flagrou eles rindo olhando pra mim. Então o jornal católico O Nordeste publicou um artigo sobre isso, dizendo que temiam o futuro de uma moça cujos pais se portavam daquela forma diante de sua prisão. No começo logo da minha atividade de escritora me juntei com um bando de comunistas e fiquei comunista. Primeiro deixei de ser stalinista e passei a ser trotskista. Isso foi bom porque fiquei amaldiçoada pela linha clássica do Partido. Me deu outra liberdade, outra visão. Depois a estreiteza mental dentro do Partido me afastou da política, acho que foi mais uma paixão de momento. Nunca condicionei meus personagens à minha ideologia.

O POVO - Conceição não faz a linha Cinderela. Aliás opta pelo intelecto e por projetos pessoais mesmo que em detrimento ao amor. Isso não pareceu ousado para a época
Rachel - De fato não há entendimento entre eles. Ela é metida a literata e ele é um homem meio rude. Se amam mas não se entendem. A gente nunca pensa que nos tempos passados as pessoas têm a mesma cabeça que têm hoje. Então uma moça rebelde, uma mocinha que não queria ser casadoira, isso já existia. Eu não precisava ser rebelde porque meu pais eram muito liberais. Primeiro não eram religiosos e politicamente eram muito evoluídos... Engraçado é que, na minha época, meus galãs, que eram meus primos, eram desse tipo. A verdade é que nunca me apaixonei por literatos, embora na minha casa a mamãe tenha sido muito literata. O Eça de Queiroz era o ídolo deles.

O POVO - A maioria dos autores renega as primeiras obras. Você aprova O Quinze hoje
Rachel - Acho que renego tudo o que escrevi, morro de vergonha. Não tenho o menor orgulho, ao contrário, sou inimiga dos meus textos. Se deixarem eu mexer ainda hoje mexo. Nunca releio o que está publicado. Não gosto. Às vezes tem uma reedição e vou fazer revisão aí fico morrendo de vergonha. Se pudesse escrever de novo fazia tudo diferente. Principalmente quanto a forma literária. Ainda mexi em O Quinze, mas da 3° edição em diante não me deixaram mais mexer. Acho que os diálogos foram melhorados, cortei as excrescências, troquei uma palavra por outra, melhorei um verbo...

O POVO - O Quinze passou a ser visto como um romance regional. Você adotou de fato essa escola?
Rachel - Eu acho que o gênero não tem importância. O que tem importância é o autor. Os bons escritores regionais, que foram poucos, deram força e dignidade ao estilo. Mas eu creio que o tema e até a forma literária, tudo depende de talento. Quando comecei não tinha idéia de romance social não. As temáticas deliberadas nunca me interessaram. Sempre fugi disso. Aliás, sempre fui muito combatida pelo Partido Comunista, por isso briguei com o partido, porque eles queriam orientar meus livros, fazerem a censura, dizer como deveriam ser os personagens... Era a Ditadura mais cruel.

O POVO - Você acha O Quinze amargo
Rachel - O tema era trágico, aquele negócio de seca, e eu não sou uma pessoa otimista, de modo que isso deve se refletir nos meus livros. Eu realmente nasci com vocação pra ser infeliz. Tanto que quando estou feliz fico com um certo sentimento de culpa. Parece que eu tô tomando alguma coisa que não tinha direito.

O POVO - A morte assusta você?
Rachel - A morte é como uma mutilação. Cada morte é como se arrancasse um pedaço de você. Mas morte pra mim é a libertação. Não tenho medo. Não tenho religião nenhuma. Sei que morreu acabou. Pelo menos calculo que é assim. Se eu morresse agora aqui você ia se assustar mas eu achava bom. Muitas vezes desejei a morte. É uma boa solução. Você tá numa enrascada, morre e pronto, acabou.

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