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Rachel 90 Anos Fortaleza,
De ofício e de coração

Italo Gurgel

[16 18h02min]

São tantos anos, tantos livros... As crônicas chegam às centenas. Os romances, de construção mais lenta, somam sete, desde O Quinze (1930) até o Memorial de Maria Moura (1992). Rachel de Queiroz é precioso exemplo de longevidade literária e de profissionalismo no mundo das Letras. Tornou-se escritora na adolescência e chega aos 90 anos com uma obra portentosa e diversificada, que navega pelo romance, a crônica, o teatro, o memorialismo, o conto infantil e a tradução

Nos arquivos do O POVO preservam-se retalhos de suas primeiras criações literárias, testemunhando o início de uma carreira que vincula fortemente o Jornalismo e a Literatura. Sob o pseudônimo de Rita de Queluz, escrevia para o recém-lançado jornal de Demócrito Rocha, que, naquele ano de 1928, publicava uma página literária - Modernos e Passadistas - reunindo a produção de escritores locais e de luminares nacionais, como Peregrino Júnior, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia e Mário de Andrade. Era o tempo em que jornais abriam espaço para a Literatura, velha prática que se perdeu, em anos recentes, na voragem do imediatismo e do menosprezo às coisas do espírito.

Rachel logo se assumiu como Rachel e abraçou em definitivo o ofício (ou a sina?) de escrever. Diz que não gosta do métier de escritora. Prefere cozinhar. Mas, para nossa felicidade, ela não parou em O Quinze, romance que lhe bastaria para garantir a imortalidade. Prosseguiu trabalhando com extremo rigor, disciplina e apuro estético e produziu, em sete décadas, algumas das mais representativas obras da moderna Literatura em língua portuguesa.

Sua prosa é fluida. As palavras brotam e as frases se formam em construções sonoras. Têm a força da oralidade. É como se não lêssemos, mas "ouvíssemos'' Rachel falando das andanças de um João Miguel, Maria Moura ou Doralina. Parece simples escrever assim. Não é. Gerar um livro é como um parto. A própria autora utiliza a metáfora: "Na verdade, sempre comparo a concepção de um livro à concepção de um filho - sim, a uma gravidez''. Durante esse estágio, é comum ela levantar-se à noite, à luz da inspiração tangida pelos sonhos, para tomar nota de uma frase, um pedaço de diálogo, uma idéia qualquer.

Depois, na etapa redacional, o burilamento é intenso. Quem tiver acesso aos manuscritos de Rachel de Queiroz descobrirá que houve, em cada página, um paciente artesanato literário. O trabalho de criação é rigoroso. Implica um sem número de operações de escritura e reescritura, que aos poucos vão moldando o texto, até deixá-lo na forma como será entregue ao público. Aqui os argumentos se ampliam, ali se resumem, ganham ou perdem adereços. Na mesma escala, o discurso vai-se tornando mais cristalino, incorporando os seus traços característicos. Escrever dessa forma exige esforço grandioso, além de uma dose gigantesca de amor à arte.

Um amor que encontra estranha forma de expressar-se, posto que começa e termina no ato da produção. O que acontece quando Rachel lê Rachel? Certa vez, ela confessou-me: "...depois de sair a primeira edição, faço pequenos consertos, corrigindo alguma falha da impressão, e aí me desinteresso. Nunca mais releio os livros. Quando sou obrigada a reler alguma coisa, tenho aquele desagrado, só vejo defeitos''

Ela é assim, apaixonadamente ela mesma. Não sobe ao pedestal onde os intelectuais adoram entronizar-se. Não veste a couraça de empedernido eruditismo, tão valorizada no meio literário. Rachel, aos 90, troca serenamente a pose, as plumas e salamaleques dos salões onde desfilam seus pares pela tranqüilidade da rede na varanda, pela prosa descompromissada com os amigos, pelas tardes mornas e noites amenas da fazenda "Não me Deixes''. Suas glórias literárias - o elogio da crítica, os incontáveis prêmios, comendas e outras homenagens - são relíquias bem preservadas e testemunham, de uma forma oportuna, o reconhecimento à grandeza de sua obra. Mas não lhe sobem à cabeça.

Rachel é assim. O que se há de fazer

Ítalo Gurgel é coordenador de Comunicação Social Universidade Federal do Ceará e diretor das Edições UFC

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