Portal
+ Comentadas
+ Lidas
80 Anos
Autoestima
Blogs
Brasil
Ceará
Cidades
Classificados
Colunas
Conteúdo Extra
Diversão & Arte
Edições Anteriores
Enquete
Esportes
Fotopovo
Galeria Digital
Horóscopo
Humor
Internacional
Mais Vídeos
Multimídia
Negócios
Novos Talentos
Ombudsman
Política
Populares
Promoções
Saúde
TV OPOVO
Tecnologia
Vídeo Cidadão
miucha
zap_teste
Últimas
Populares
Fórum
Rachel 90 Anos Fortaleza,
Tão Conceição, tão Moura

Da professorinha Conceição, de "O Quinze", à Maria Moura, do último romance, Rachel de Queiroz vem lapidando as inquietações femininas - a dicotomia de conciliação difícil entre o mundo da família e o universo do trabalho.

Eleuda de Carvalho


[17 19h41min]

Parece que foi o mal amanhado Graciliano Ramos, ou teria sido o dentuço Manoel Bandeira? O caso é que um desses dois grandes da literatura brasileira teria dito, do livro assinado por uma garota cearense, Rachel de Queiroz: foi coisa do doutor Daniel, pai dela. Onde já se viu uma moça escrever assim? Pergunto agora, literatura tem gênero? Existe uma escrita dita de homem ou de mulher? E, se afirmativamente, essa literatura precisa corresponder ao sexo de quem a escreve? Lembrando Chico Buarque e, mais recente, o paraibano Chico César, que tão bem falam no feminino, sem esquecer do terno Gilberto Gil, ou uma erótica Ana‹s Nin, mais fescenina que o lúbrico Aretino e tão safada quanto Sade, respondo negativamente à segunda pergunta. Também renego a primeira: não, literatura não tem gênero. Embora o mercado editorial insista em rotular.

Desde o primeiro romance, publicado há exatos 70 anos, Rachel de Queiroz vem depurando suas óbvias qualidades literárias e minimizando alguns de seus reconhecidos defeitos. Em O Quinze, estréia uma narradora vigorosa, um tanto árida, despojada de um certo acento sentimental tão colado à personalidade feminina, que bom. Nestas páginas escritas à luz de lampião, deitada no chão de cimento batido da casa da Messejana, ainda antes dos 18 anos, Rachel injeta determinação nas veias de sua personagem. Como um Maiakóvski às avessas, Conceição é razão pura, move-se pelas teias de sua mente contestadora, sem ser, contudo, rebelde ou dissimulada. Apenas uma mulher que opta: entre o trabalho e o amor (leia-se família), escolhe o trabalho. Quantas ainda não passam por este dilema contemporâneo?

Fazendo um hiato na produção da escritora, incluindo-se aí o teatro, a crônica e as memórias, vamos reatar Conceição, a primeira mulher criada por Rachel, à última. Ao contrário da Virgem de quem herdou o nome, Maria, dita a Moura, não tem compaixão. Vai além da figura mítica da donzela guerreira, tal como a recriou o João Rosa em Grande Sertão: Veredas, com sua Diadorim. Maria Moura também deseja o prazer, além da luta. E quer ganhar em todas as batalhas. A Moura vive num tempo ainda mais avesso aos direitos das mulheres do que o começo do século, no sertão do Ceará e na acanhada Fortaleza, por onde se move a professorinha de O Quinze. Aquele era um tempo metálico, de emboscada. Em cada ângulo, um inimigo a espreitar. Maria, um punhal, faca só lâmina. Só o amor foi capaz de aveludar sua armadura.

Mas, tanto a Moura quanto Conceição, esta sempre a duvidar do afeto rude do primo, não se renderam. Moura sequer hesita em matar o amado, segura de ser atraiçoada. A professorinha prefere a solteirice fértil, ao lado do meninozinho enjeitado que adotou, do que aturar um marido a quem a sociedade permitia (e mesmo encorajava) sujeitar a esposa. Moura desdenha do amor porque ele fragiliza a guerreira. Conceição, por sua liberdade. Ambas não cabem no modelo de feiúra destinado àquelas que voltam as costas às sentimentalidades: Conceição é uma cabocla enxuta, que as muitas leituras refinaram. Tem um corpo apetitoso para os embates da paixão, mas não ousa. Maria Moura se esconde sob o couro do gibão, a cabeleira presa, mas não hesita em gozar de sua sensualidade selvagem com o padrasto assassino, o negro apaniguado, o belo moço cacheado do seu bem querer. Conceição jamais chegará à senhora de si mesma, restrita pelas malhas morais da sociedade. A Moura faz suas próprias leis. Entre uma e outra, cavalga a alma indomada de Rachel.

Cultivando pedras
Manuais de literatura, verbete "romance regional": prosa moderna pós-realista, com laivos sociológicos via marxismo, que marcou, principalmente, os autores nordestinos da década de 30. Por isso também chamado "romance de 30''. Extrapolando o cânone, também se poderia definir como um neo-romance histórico, centrado no meio rural, adiantando uma tendência de reconstrução do passado que será forte, no Brasil, nos anos 80. Pois foi nessa escola - da qual a figura de proa é, inegavelmente, o alagoano Graciliano Ramos - que Rachel de Queiroz tirou seu diploma de escritora.

O marco inaugural vem antes, quando o paraibano José Américo de Almeida lança A Bagaceira, em 1928, tendo como cenário a zona da mata canavieira. Em 1930 sai O Quinze, da muito jovem Rachel. Que vem pronta. O seu romance inicial é um dos melhores que ela escreveu, ao lado do Memorial de Maria Moura, obra de maturidade estilística. Vinte anos depois, o romance brasileiro jamais será o mesmo, ao entrar em cena o imaginoso mineiro João Guimarães Rosa. Época em que Jorge Amado já havia passado pelo surto do realismo socialista e deliciava os leitores com suas mulheres apimentadas, cheirando a cravo e a canela. A prosa urbana suplantava o cenário do campo, o país tomado pelo afã desenvolvimentista, que a indústria de São Paulo e a arquitetura de Brasília preconizavam. E Rachel de Queiroz escrevendo crônicas nos jornais, onde o suave absinto de Clarice Lispector dava o ar de sua graça.

Todos mortos, como no poema de Drummond. As pessoas, não suas obras. E nem Rachel. Uma e muitas vezes, a primeira mulher a cruzar o umbral da solene Academia Brasileira de Letras desdenharia seu mister. Não gosto de escrever, diz, não escrevo bem, fala. E não é excesso de modéstia, talvez de auto-crítica. Em parte, Rachel tem razão. Ela não veio para inaugurar linguagens, romper estruturas, revolucionar as letras. Ela não seria nunca vanguardista e talvez aí esteja o sentido oculto de seu vigor. Rachel é uma autora clássica.

Sabe contar muito bem uma história, mexendo as teias de sua urdidura literária com fina maestria. Nem sempre com zelo. Ainda hoje, a crônica semanal de Rachel chega ao Vida & Arte com erros de acentuação (o pronome ele vem sempre muito elegante, com seu chapeuzinho). Rachel não parece reler o que escreve, daí algumas repetições desnecessárias, um tanto de descuido tão comum ao texto jornalístico, feito no calor da hora. Mas injustificável no ofício do escritor. Meros detalhes da leitora exigente. Porque o mais importante está ali, linha a linha: em meio aos áridos pedregais da caminhada, Rachel desfolha bromélias rubras, a vida. (Eleuda de Carvalho)

Imortalidade de saias
Rachel de Queiroz foi a primeira imortal de saias. Não fosse mulher, provavelmente não teria sido necessário tanto tempo para ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Na verdade, 47 anos desde a publicação do seu romance mais famoso. No dia 4 de agosto de 1977, a escritora cearense derrubava um tabu de oito décadas ao ser eleita para a cadeira número cinco da ABL, antes ocupada por Cândido Mota Filho. "Entrei por força de velhos e queridos amigos que nunca suportaram a idéia de mulher fora da Academia'', disse à repórter do O POVO Ana Cláudia Peres, quando atingiu a maioridade como imortal, em 1988.

Até a entrada de Rachel, a misoginia reinava na Casa de Machado de Assis, como também é chamada a ABL, em homenagem ao seu fundador. Tentativas, houve muitas. Meio infrutíferas até então. Como Olegário Mariano, um poeta que via um único problema no ingresso de mulheres na Academia. "Há um obstáculo só, que me parece enorme/ O habit vert. Que fazer? Criar novo uniforme? Ou deixá-la à paisana o templo penetrar?/ Os olhos do Trianon quase não dizem nada/ mas preferem por certo a mulher decotada/ Que uma mulher fardada é horrível de se olhar''.
O problema foi resolvido por Rachel. "Claro que não iria vestida de fardão. Então, ficou todo mundo impressionado a se perguntar com que roupa eu apareceria'', disse. Para resumir a história: a escritora encomendou um vestido clássico só com o galão da Academia. Simples, assim. A idéia acabou sendo adotada por todas as futuras imortais. O curioso é que o assunto da vestimenta acabou se transformando em assunto nacional. Dando uma passada por jornais da época, a roupa de Rachel foi motivo de pautas dos grandes jornais brasileiros. Enfim, a palavra final do então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde: um vestido longo, escuro, seria a roupa adequada para Rachel, que não foi obrigada a usar o fardão, o chapéu de dois bicos e a espada.

A tese do "menina não entra'' era bastante arraigada na Academia. Já na sua criação, em 1897, um episódio simbolizava a filosofia da casa. como não se queria convidar a romancista, contista e cronista Júlia Lopes de Almeida - mais aplaudida pela crítica do que muitos homens literatos - para ocupar uma das vagas na Academia, chamou-se o marido da escritora, Filinto de Almeida. Ele próprio costumava brincar: "Na Academia, sou o acadêmico consorte''. O preconceito causou injustiças, como o "esquecimento'' da poeta Cecília Meireles. Em 1930, por exemplo, a escritora Amélia de Freitas Beviláqua, esposa de Clóvis Beviláqua, um dos fundadores da ABL e homem influente lá dentro, tentou candidatar-se a uma vaga. Não houve jeito. Ela ficou de fora, o marido nunca mais pisou na Casa e a mulher continuou de fora.
Até a entrada de Rachel. Hoje, além da cearense, estão na Academia Lygia Fagundes Teles e Nélida Piñon, que já tentou inclusive ocupar o cargo de presidente da Casa. (Rodrigo de Almeida)

Na lide acadêmica
Os imortais não resistiram - clap, clap, clap. A saraivada de palmas, então, provocou o melhor sorriso na homenageada, atravessou as paredes da sala de reunião dos intelectuais e espalhou-se por todo o segundo andar do prédio da Academia Brasileira de Letras. Nem era para menos. Afinal, depois de um tempo sumida - problemas de saúde - a cearense Rachel de Queiroz, a cadeira número cinco, voltava às sessões semanais dos acadêmicos. Depois, abraços, perguntas, preocupações externadas, conversinhas rápidas e, enfim, ao trabalho, que o tempo urge.

A portas fechadas, eles discutem assuntos internos. Rachel, então, desmistifica."Nada demais, não tem segredo. Falamos apenas da economia interna da casa''. Tudo bem, hora de esperar pelo menos uma hora e meia até que as portas sejam reabertas e eles saiam em grupinhos, de dois ou três, quase em abraços, ombro a ombro, em conversas já pela metade. Rachel de Queiroz atravessa devagar o hall - passos pequeninos, apoiados pela bengala -, porque são muitos amigos a exigir-lhe a atenção. Mas, ao lado, em uma sala de chá, aguardam guloseimas.

Sendo assim, bom terminar o papo entre xícaras de porcelana, mordiscando pedacinhos de bolo inglês, pães de queijo, strudel, croissant. De olho no prato da cearense, a supervisora do lanche Cecília Costa, 60. "É que ela está de dieta médica. Não pode comer os doces ou massas mais pesadas''. Depressa, substituído o pires de Rachel por conteúdos mais diet. A um metro, de pé, como um soldado atento mas em posição de descanso, está Madalena Oliveira, 46, a enfermeira do dia. "Eu cuido dela e ela é muito boa de lidar''. Boa, mas, não se engane: independente e rápida demais para uma pegadinha no braço na hora de levantar ou andar.

Na mesa, por trás da dança de bules de prata, ilustres companhias - Carlos Nejar, Antônio Olinto, Marcos Almir Madeira, Eduardo Portela, Ivan Junqueira. Por perto, fãs incondicionais na pele de discretos funcionários, como Maria José de Abreu, da secretaria-geral. "Acompanhamos a vida de cada um. Dos momentos mais alegres, como na solenidade de posse, aos mais tristes, como nas providências para funerais". A escritora Rachel, no entanto, ganha carinhos amiúdes. "Tenho todos os livros autografados". E, na voz uma ênfase de orgulho, "fiz a inscrição de Rachel, cuido dos assuntos dela desde o começo". (AA)

"A Academia Brasileira de Letras é um clube do Bolinha, onde menina não entra, mesmo que fosse homem não pleitearia jamais o ingresso na Academia, pois não tenho vocação para tipo de entidade".
JB 25/09/77

"Jorge Amado se repete. É muito escravo do êxito que conquistou. (...) Jorge tem talento para fazer grandes livros. Mas ele é um personagem muito curioso. Um amigo leal, mas um homem que quer fazer a carreira dele a todo custo."
Veja 02/10/96

[ctdi_Clima] Erro na 3ª linha : ('+') Erro em tempo de execução do IQSP: java.lang.NullPointerException
Chat
Digite login:
horoscopo
Aquário
Aquário:
AQUÁRIO (21 de janeiro a 19 de fevereiro) ¿ Não deixe que mudanças externas inte ...



webmail
Digite login:
Digite senha:
Não tem Webmail do NoOlhar?
inscreva-se grátis!
Esqueceu a senha? Clique Aqui!
  Política de Privacidade   Aviso Legal   Publicidade Online   Faça desta sua Home   Contato
© Copyright 2001 Noolhar.com Todos os direitos reservados Produzido por ClickLabClickLab