Portal
+ Comentadas
+ Lidas
80 Anos
Autoestima
Blogs
Brasil
Ceará
Cidades
Classificados
Colunas
Conteúdo Extra
Diversão & Arte
Edições Anteriores
Enquete
Esportes
Fotopovo
Galeria Digital
Horóscopo
Humor
Internacional
Mais Vídeos
Multimídia
Negócios
Novos Talentos
Ombudsman
Política
Populares
Promoções
Saúde
TV OPOVO
Tecnologia
Vídeo Cidadão
miucha
zap_teste
Últimas
Populares
Fórum
Rachel 90 Anos Fortaleza,
Genoma literário

Não é simples escrever simples como faz Rachel de Queiroz. O processo de criação da autora tem sido objeto da Crítica Genética, linha de pesquisa que reconstitui a gestação das obras literárias através dos manuscritos

Clarisse Furlani

[17 19h41min]

O ato criativo é um mistério fascinante. Quase tanto quanto o mistério de dar à luz uma vida. A metáfora é de Rachel: "Comparo a concepção de um livro à concepção de um filho - sim, a uma gravidez. Quando você vê, o livro já está lá dentro, vivo e mexendo, bulindo com a sua cabeça''. Um quase milagre ofertado ao deleite dos leitores e à curiosidade da ciência, que está sempre tentando explicar o inexplicável.

Nos estudos literários, a Crítica Genética tenta esmiuçar o processo de criação; e na genética literária brasileira, as crias de Rachel de Queiroz estão em foco. No Rio, As Três Marias, João Miguel e Memorial de Maria Moura, numa linha de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), capitaneada pela professora Marlene Gomes Mendes; aqui, Dôra, Doralina, num estudo do jornalista Italo Gurgel, publicado pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Cada tese tenta reconstituir a gestação de uma obra a partir dos manuscritos, registros das fases embrionárias de criação.

"Na genética, manuscrito é qualquer registro que tenha intervenção do autor'', explica Gurgel; vale qualquer versão entre a idéia e o livro publicado, escrita a punho ou não. O trabalho está longe de ser maçante; ao tocar o segredo da criação literária, a história contada pelos manuscritos revela detalhes preciosos.

O estudo genético da obra de Rachel de Queiroz deve-se ao escritor Mario de Andrade, que, certa vez, escreveu uma crítica elogiosa a As Três Marias. Comovida, a iniciante Rachel quis saber como agradecer. "Me dê o manuscrito'', foi a resposta. Esta história, Marlene Gomes ouviu da própria escritora. Com a caderneta escrita a lápis (que está no arquivo de Mario, na USP) e um datiloscrito, a pesquisadora começou o estudo de As Três Marias.

Na época, em 1988, Rachel já estava grávida de outra cria. "Ela contou que estava começando a pensar na história da ancestral de todas as cangaceiras. O nome seria Moura'', recorda Marlene. Rachel concordou presentear Marlene com os rascunhos do que seria o Memorial... Mais tarde, em conversa com Italo Gurgel - que preparava Uma Leitura Íntima de Dôra, Doralina - Rachel diria, rindo-se: "ela me traiu, porque não me disse que estava fazendo Crítica Genética. Quando eu descobri, passei a usar Liquid Paper para fazer correções''.

"O estudo genético pode ser incômodo para os autores'', explica Gurgel. Isto porque mostra a criação ainda amorfa. "Mas Rachel tem consciência da riqueza deste material''. Com a colaboração da escritora, os pesquisadores vêm desenhando um esboço do genoma literário da obra de Rachel, de João Miguel ao Memorial... . E o que revela este mapa genético? "Que não é tão simples escrever simples como Rachel faz'', responde Italo Gurgel. As rasuras nos manuscritos de Dôra... denotam um esforço minucioso para manter a fluidez do texto. "Termos eruditos foram trocados por outros coloquiais'', diz.

Há mais. Uma comparação pode retratar a evolução do fazer literário de Rachel. As Três Marias é escrito com a pressa típica da juventude. ``Ela escreve como se tivesse pressa. Depois volta arrumando, dando forma'', explica Marlene. Já o Memorial... tem uma gestação demorada. "O processo é redutivo, ela vai limpando, suprimindo. É mais amadurecido'', conclui. Também há semelhanças: nas duas obras, a autora começa narrando em terceira pessoa; depois se arrepende e volta transformando tudo em primeira. Para Marlene, são marcas de uma literatura confessional. "Ela se sente mais à vontade escrevendo na primeira pessoa''.

Os esboços de Rachel estão sendo gravados em CD-ROM, para evitar danos com o manuseio; assim, conserva-se o registro para estudos futuros. ``Os manuscritos revelam um universo que não está disponível ao leitor comum'', diz Marlene. A leitura genética está trazendo à luz este universo.

"Por mais que a louvemos..."
Noventa anos do nascimento; setenta na lide literária - a trajetória de Rachel de Queiroz consagrou-a como celebridade nacional. Não faltam registros oficiais: imortal por decreto, a primeira mulher da ABL coleciona prêmios, títulos e outras honrarias país afora - e alhures. Depois das portas da Academia, a cearense foi abrindo as alas da literatura nacional legitimada para as escritoras. Em 1993, foi a primeira brasileira a receber, em Lisboa, o prêmio Camões, dedicado a escritores de língua portuguesa. Em 1997, foi também a primeira a constar nos "Cadernos de Literatura Brasileira'', do Instituto Moreira Salles. Sem negar-lhe o mérito por tantas honras, o pioneirismo pode ser atribuído, em parte, às circunstâncias: "Como sou mais velha que a maioria, geralmente sou a primeira mulher em tudo'', disse Rachel, ao receber, em 96, o prêmio Moinho Santista - entregue pela primeira vez a uma mulher.

Ela só entrou na Academia Cearense de Letras em 1994, quando a academia completava cem anos. "Não é a Academia que homenageia Rachel, mas é Rachel quem homenageia a Academia ao ingressar nas suas fileiras'', disse, na época, o presidente da ACL, Artur Eduardo Benevides. "O que eu ganho aqui na minha terra, curto muito mais que em qualquer outro lugar'', riu-se Rachel. Por aqui, também, tornou-se Doutora Honoris Causa pela Universidade do Vale do Acaraú (UVA), em 95.

O Rio deu-lhe o título de cidadã carioca. Com seu nome foram batizados teatros e escolas no Ceará, uma creche em Israel e até o prédio onde mora. Ao lado das condecorações formais, outras mais carinhosas: madrinha do Ferroviário, recebeu do time uma locomotiva em miniatura, em 1994; depois, a vascaína tornou-se sócia honorária do Vasco da Gama.

Aos 90 anos, novas homenagens. No Rio, a ABL promoveu a exposição "Viva Rachel'', entre 4 de maio e 23 de junho, que ainda está na Internet (http://www.academia.org.br). O Senado deve homenageá-la em sessão solene. No Ceará, a comemoração terá centro em Quixadá, onde será construída a Casa de Cultura Rachel de Queiroz. E a festa prossegue coroada pelos versos de Manuel Bandeira à amiga: "... por mais que a louvemos, nunca a louvaremos bem''. (CF)

Angústia de uma imortal
Um desejo que só se tem na juventude, apesar do viço do tempo moço. (Como se a distância da noite servisse de alento ao menino que brinca no sol quente, pés descalços, imune ao resto do dia). Uma vontade que se justifica apesar do tempo - ou por causa dele.

Nas crônicas cariocas de 1972, Rachel de Queiroz já escrevia sobre a morte, seduzida. Prevenia o destino: "Quando raiar o ano 2000, se eu for viva, do que Deus me livre, terei 89 anos, quase noventa. (...) na minha família, nós não envelhecemos bem. Passou dos 75, começamos a ficar esquecidos, repetindo histórias, dando mais importância ao passado do que ao presente, desligados do mundo atual''.

"Na velhice'', continua, antecipando a vida, "nos meus imaginários 90 anos, as novidades do tempo, os delírios da virada do século, francamente, o que podem dar é medo. Bem, medo não; antes tédio. Enjôo dos prodígios mecânicos que eles terão inventado, das torres de centenas de andares, das loucuras astronáuticas, dos carros terrestres ou voadores correndo a mais de mil quilômetros por hora, dos transplantes de órgãos, da mocidade permanente conseguida a poder de bisturi e drogas''.

Aos 62 anos, Rachel tentava um acordo escrito com Deus: "(...) não estou pronta para enfrentar o ano 2000 nos meus 89 anos. Prefiro ir embora antes de entrar na fase de deterioração total, e, se o meu amigo J.C. não me engana, procurar descontar os pecados com boas obras, obter algum saldo (talvez enfrentando uns anos de purgatório) e afinal pegar da minha harpa e ir cantar aos pés de Nosso Senhor - muito antes dos 90''.

Já naquela época, tinha motivos para tentar a barganha. "Não pretendo ser recauchutada, esticada, desplissada, recondicionada. De que serve renovar a cara, se não se renova o coração?'.

De nada adiantaram os argumentos, redigidos de próprio punho. Dona Rachel viu amanhecer o ano 2000.

E valendo-se de uma réstia de luz, que incide na sobra de vida em branco, escreve como se alertasse aquele menino travesso no sol quente: "Sonhei que estava morta. Creio que morta de muito, podia dizer mumificada, mas não: estava era como que transformada em terra, tendo de gente apenas a forma e essa mesma se desfazendo aos poucos. (...) Exposta ao sol e à chuva, os cabelos eram como ervas secas, com as raízes mais secas ainda se afundando no crânio argiloso, os braços de terra dura atirados em cruz, as pontas dos dedos se esfarinhando, o nariz, as orelhas, começando a se esbeiçar. Dentro do peito oco uma pedra jazia de encontro à espinha terrosa e aquela pedra era o meu coração'' (*). O medo já não é mais dos delírios da virada do século. (Ana Mary C. Cavalcante)

(*) trecho da crônica Noite, publicada no caderno "Vida & Arte'', no dia 10/06/2000.

Sobre Rachel

"Sou tomada por muita emoção quando falo de Rachel. Eu invejei Rachel, quis ser Rachel. Rachel de Queiroz é este paradigma em que todos nós nos miramos e queremos imitar". Adísia Sá O POVO, 16/05/97

"A cultura cearense deve muito a Rachel de Queiroz. Sua obra, por sua vez, transcende os nossos limites". Tasso Jereissati, O Povo 16/08/94

"Para mim a grande romancista brasileira da atualidade é Rachel de Queiroz". Ariano Suassuna, Veja 03/07/96

"Ninguém hoje está se opondo a candidaturas femininas. O que se vai julgar é o valor dos candidatos. O voto na Academia é secreto, mas não vou ao ponto de negar que estou com Pontes de Miranda." Barbosa Lima Sobrinho, sobre a candidatura de Rachel à ABL, JB 07/08/77

"Por onde anda, Rachel de Queiroz leva o princípio da cearensidade" Flavio Paiva, O POVO, 32/05/2000

[ctdi_Clima] Erro na 3ª linha : ('+') Erro em tempo de execução do IQSP: java.lang.NullPointerException
Chat
Digite login:
horoscopo
Câncer
Câncer:
CÂNCER (21 de junho a 22 de julho) ¿ A parte profissional em um bom dia e pode a ...



webmail
Digite login:
Digite senha:
Não tem Webmail do NoOlhar?
inscreva-se grátis!
Esqueceu a senha? Clique Aqui!
  Política de Privacidade   Aviso Legal   Publicidade Online   Faça desta sua Home   Contato
© Copyright 2001 Noolhar.com Todos os direitos reservados Produzido por ClickLabClickLab