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Conspiração Nordeste
Um legião de arcanjos de quepe decidiu dar um golpe e derrubar Jango. Os guardiões fardados do Brasil contaram com o apoio das trombetas de arautos de uma ditadura militar que durou 20 anos. A trombeta, ou melhor, a caneta da cearense Rachel de Queiroz foi uma delas.
Demitri Túlio
[17 19h41min]
O golpe de 1964 veio no dia 31 de março. Rachel de Queiroz e seu marido Oyama estavam no sertão do Ceará. Não foi sua televisão, tamanho postal, alimentada à bateria de carro, que trouxe a notícia. Um telegrama assinado "marechal Humberto Castelo Branco - presidente da República'', dava a certeza que o amigo de coturno era o novo comandante do Brasil. Naquele momento outra constatação: a conspiração intelectual encampada por Rachel e o escritor Adonias Filho haviam contribuído para sufocar os suspiros de Jango e a possibilidade de Leonel Brizola chegar à Presidência.
Dois convites de Castello Branco, após o golpe, mostravam o quanto o marechal era grato à escritora cearense. O conterrâneo queria tê-la como companheira no diretório da Aliança Renovadora Nacional (Arena). Mais, que ela fosse delegada do Brasil na Assembléia da ONU em 1966.
Sua filiação que acabou não acontecendo, na verdade, tratava-se de um reconhecimento a seus serviços prestados, como jornalista, à conspiração que havia derrubado o então presidente João Goulart. Inimiga confessa de Getúlio Vargas, a quem chamava de caudilho e fascista, Rachel de Queiroz havia transferido por tabela ideológica a herança odiosa a Jango e Brizola.
Sem se preocupar com o rótulo de reacionária, Rachel nunca fez questão de esconder que uma parte de sua vida foi dedicada à trama política que contribuiu para o início da ditadura militar no Brasil. Após a renúncia de Jânio Quadros, o conturbado período de Jango e ameaça de Leonel Brizola ser eleito presidente, ela e o "general civil'' Adonias Filho resolveram trabalhar voluntariamente como intelectuais para fardões Golbery do Couto e Silva, Newton Reis, Herrera, Antonio Muricy e Sizeno Sarmento.
O escritor baiano Adonias Filho, que foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), era uma ex-integralista e, naquele momento, um liberal como Rachel de Queiroz. Na condição de jornalistas, os dois procuravam manipular a opinião pública através de seus textos e em reuniões com intelectuais e fardões. Adonias era editorialista do Diário de Notícias e Rachel, na época, escrevia artigos para a revista O Cruzeiro na seção Última Página.
A dedicação da ex-escriba do Partido Comunista era tanta que sua casa serviu por diversas vezes de quartel general. "... Nos reuníamos em minha casa... As coisas foram se preparando, a gente conspirava, via o que um ou outro poderia fazer: passávamos às vezes a noite em `vigília cívica'. Eu me mudava de quarto para poder receber os telefonemas de Adonias... O que nós fazíamos era conspiração mesmo: saber onde estava a tropa, se o coronel fulano de tal tinha se manifestado, se o coronel beltrano era de confiança... era conversa de conspiração, no duro'', revelaria Rachel no livro biográfico Tantos Anos.
A cearense e o baiano Adonias, na verdade, eram usados e se deixavam usar pelos generais que se auto-proclamaram guardiões do Brasil. Os arcanjos de quepe tinham em Rachel e Adonias, arautos de uma nova ordem política que iria se impor a ferro e fogo durante 20 anos. "... fazíamos o lado político, de pregação, de jornalismo de combate, de artigos de encomenda, de nos trazerem assuntos para a gente falar, isso era o nosso trabalho''.
Mas uma "ala reacionária'' do Exército, comandada pelo general Costa e Silva, conspirou contra Castello Branco. Embora Rachel o tachasse de "sargentão de poucas letras'' foi mais uma vez usada para escrever bem sobre um ditador. "Quando o general Costa e Silva subiu, por mim eu já teria me afastado. Ainda assim, o presidente (Castello) me obrigou a fazer um artigo sobre o primeiro mês do governo... artigo imparcial e até elogioso".
Amiga do poder
Castello Branco sabia da conspiração intelectual encabeça por Rachel de Queiroz e Adonias Filho? Segundo a própria escritora, ele tinha conhecimento mas não fazia um único comentário. Cubava e era informado sobre todos os movimento. Se aquartelava e lá, feito aranha, ia juntando todos os fios.
O golpe transformou o marechal em presidente do Brasil. A partir de então, apesar de Rachel de Queiroz ter buscado o afastamento, Castello Branco passou de simples amigo a confidente dos bastidores do poder. "O presidente costumava ir à nossa casa sempre que vinha de Brasília ao Rio de Janeiro. Telefonava, perguntava se estávamos sozinhos pois queria `desabafar'".
O casal Rachel e Oyama ouvia tudo sobre os passos da "revolução" militar e guardavam como segredo de estado. Nem mesmo o fiel Adonias Filho sabia. "Me provocava muito, me fazia dizer opiniões radicais sobre uma coisa ou outra e comentava: 'imagine, que loucura se fosse seguir seus conselhos'.'. As confidências eram tantas que Castello chegou a confessar uma vez que pensava que estar deposto pelo grupo de Costa e Silva.
Por ironia do destino uma conspiração institucional levou Costa e Silva a substituir Castello Branco. Dentro do tempo normal. Com a faixa no peito, o "sargentão de poucas letras'' afastou todos os generais de Rachel de Queiroz. "Sobrou apenas Golbery (...) Quando Castello morreu eu estava completamente desligada do movimento (...) Eu tive a prudência de jamais me aproximar deles, do ponto de vista ideológico. Com aquilo eu não tinha nada a ver''.
Mesmo "afastada'', Rachel tinha ligações íntimas com o poder e servia vez por outra de conselheira para os generais da ditadura. Quando Médice assumiu a Presidência chamou a escritora para discutir a aposentadoria rural, o Funrural. "Já escrevi isso e considero que representa um fato social tão importante quanto foi, a seu tempo, a abolição da escravatura'', diria.
Com Geisel houve troca de telegramas, um convite para ser ministra e uma boa relação com a filha do presidente Amália Geisel. O convite para ser ministra se repetiria com o João Batista Figueiredo e José Sarney. Sarney, o primeiro presidente-civil após a ditadura, era um filhote histórico da Arena - ninho dos generais. Anos depois, ele estaria também compartilhando com Rachel o Chá das Cinco na ABL. (DT)
Tchau, camaradas
A ojeriza ao Partido Comunista e, por extensão, a meio mundo vermelho tem motivo. Aliás, várias razões. Duas delas são patéticas e cheiram a intolerância por parte dos camaradas.
Como todo comunista engajado, Rachel de Queiroz conta que, na década de 30, alimentava um desejo de conhecer in locu a União Soviética. Ela e seu noivo, o poeta pernambucano José Auto. O plano era ir até Hamburgo (Alemanha) e de lá com, ajuda dos stalinistas, pegariam um trem até Moscou.
Alguns meses de privações renderam ao casal pé-de-meia suficiente para as passagens. Como tudo (até hoje) dependia da deliberação da dos camaradas dirigentes, "inocentemente'' os dois foram até a direção do Partidão. Lá chegando tiveram o dinheiro confiscado.
"Eles descobriram nosso dinheiro e disseram: vocês são intelectuais e não precisam ir a União Soviética para conhecer o socialismo. Os operários que não têm dinheiro é que vão. Sua passagens vão servir para dois operários'', contou Rachel 1993 à revista Entrevista, dos estudantes de comunicação da UFC.
Outro episódio também foi marcante. Certa ocasião os camaradas a convocaram para uma reunião para falar sobre o livro João Miguel, o segundo de Rachel. Depois de ler os originais da obra e quase confiscá-los, exigiram que a trama fosse "proletarizada" pois os "campesinos" do livro estavam subjugados.
No livro, um camponês mata outro. Um coronel tem privilégios na cadeia e sua filha, loura, mantêm um romance com outro campesino. Os comunistas desaprovavam inteiramente a obra e exigiram que ela fizesse com que o coronel matasse o campesino e fizesse com que a filha dele se prostituísse e não a do campesino. "Não reconheço em vocês autoridade literária para criticar o meu livro. Passar bem. Meti o pé na carreira. Com sorte, ia passando um bonde e entrei. Quando eles saíram espantados eu já tava longe. Foi o último contato com o partido'', lembraria a escritora aos estudantes. (DT)
Desafeto - O caso é que era franzino e tinha mãos frias o tal sujeito, mas Rachel só se referia a ele como "o das notas ferinas". Nos jornais da cidade, ele - Rachel nunca revelou a identidade do desafeto - tratou de espalhar que O Quinze não havia sido escrito pela filha, mas sim pelo pai, Daniel Queiroz. A escritora já tinha lhe jurado uma sova. Um dia, no entanto, ela não resistiu. À tarde, sol a pino, na calçada da cadeia pública de Fortaleza, cruzaram-se os dois. Então, dito e feito: "fechei a sombrinha, segurei o cara pela gola do paletó e bati nele nos ombros, na cabeça, até quebrar a sombrinha". Depois disso, como mas nada havia a fazer, "nos separamos e nunca dissemos a ninguém uma palavra sobre isso".
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