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Ajustando o foco
Três livros de Rachel de Queiroz estão sendo adaptados atualmente para o cinema. Reencontro tardio da escritora com o audiovisual, com quem flerta desde 1953
Émerson Maranhão
[17 19h41min]
Parece febre. Vez por outra, angulares, refletores, claquetes voltam-se para a obra de determinado escritor, esmiuçando as entrelinhas de suas narrativas. O resultado é conferido pouco depois nas telas pelo País afora. Assim foi com Nelson Rodrigues, Jorge Amado e tantos outros que tiveram suas personagens e ações transpostas para o audiovisual nas últimas décadas. Agora, a direção das câmeras parece estar tomando um outro rumo, ajustando o foco sobre os escritos de uma cearense até então pouco explorada nesse campo, Rachel de Queiroz. Atualmente, nada menos que três livros da primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras estão ganhando versões cinematográficas. Reconhecimento merecido, ainda que tardio, à uma obra tão expressiva.
Em Petrolina, no interior Pernambucano, a diretora cearense radicada no Rio de Janeiro Leilany Fernandes comanda as filmagens de Memorial de Maria Moura, longa-metragem protagonizado por Dira Paes. Depois de ter servido de inspiração para uma série televisiva (veja matéria nesta página), o mais recente romance da escritora deve entrar em circuito nacional de exibição no final do próximo ano.
Por esses mesmos dias está previsto o início das filmagens de O Quinze, sob a direção de Aurora Duarte e Jurandir Oliveira. O livro de estréia de Rachel de Queiroz finalmente ganha as telas depois de várias tentativas frustradas durante as décadas de 80 e 90, quando se chegou a anunciar mais de uma vez a sua realização. O filme, que está sendo produzido pela sobrinha e assessora particular de Rachel, Letícia Menescal, está orçado em R$ 3 milhões e será rodado no interior cearense. A própria escritora reconhece que a adaptação deste título não aconteceu antes por excesso de zelo de sua parte. Rachel de Queiroz não queria que seu primogênito ficasse a mercê de pessoas que não confiasse.
Paralelo à captação de recursos para a realização de O Quinze, Letícia já está começando a pré-produção de João Miguel, longa-metragem que deve ser dirigido por Jurandir Oliveira, também responsável pelo roteiro. Previsto para ser iniciado no primeiro semestre de 2002, o filme terá locações em Baturité e Canindé e, segundo a produtora, é um projeto totalmente voltado para o Ceará, com elenco e equipe exclusivamente cearenses.
O intercâmbio entre a obra de Rachel de Queiroz e a linguagem audiovisual, no entanto, é mais antigo do que muitos supõem. Ela é a autora de todos os diálogos do premiado filme O Cangaceiro, realizado por Lima Barreto em 1953. A experiência da escritora nessa seara não rendeu novas incursões durante mais de 45 anos. Agora, ela rendeu-se aos apelos da sobrinha e volta ao batente incomum: assina os diálogos da adaptação de O Quinze.
Adaptações: imagem mal refletida
"Leram o livro, não gostaram e escreveram outra história''. O comentário de Rachel de Queiroz tem alvo certo: a série brasileira Memorial de Maria Moura, produzida pela Rede Globo de Televisão. Mas poderia muito bem se estender a boa parte das outras tentativas de levar seus personagens para a linguagem audiovisual. Decepções recorrentes, Rachel de Queiroz anda meio ressabiada com as adaptações que seus escritos têm tido nas telas.
Primeiro foi Dôra, Doralina que ganhou versão em película pelas mãos do diretor Perry Salles, na década de 70. O resultado não frustrou apenas a autora do livro homônimo. O passar do tempo deu o merecido esquecimento ao filme, do qual nem registros se encontram nas publicações da época. Ainda benevolente, Rachel credita à falta de recursos o fracasso da tentativa, confiante nas boas intenções do então marido de Vera Fischer, estrela da produção.
O golpe seguinte veio rápido, dois anos depois. O romance As Três Marias virou telenovela global das 18 horas. O pecado foi maior. Imperdoável, para ser exato. A história das três adolescentes da década de 40 ganhou o verniz comum à teledramaturgia dita popular, beirando um samba do crioulo doido. "O resultado foi um delírio'', comentou Rachel, como sempre, delicada.
Com suas crias de volta à berlinda, a escritora tem se cercado de certos cuidados. Todos os diálogos de O Quinze são de seu próprio punho e a adaptação cinematográfica de Maria Moura aqui e acolá teve sua supervisão. (EM)
RACHEL NO AUDIOVISUAL
Dôra, Doralina (1978) - Filme dirigido por Perry Salles. Com Perry Salles e Vera Fischer.
As Três Marias (1980) - Telenovela produzida pela Rede Globo de Televisão. Com Glória Pires, Nadia Lippi e Maitê Proença.
Memorial de Maria Moura (1996) - Série brasileira produzida pela Rede Globo de Televisão. Adaptação de Jorge Furtado e Carlos Gerbase. Direção artística de Carlos Manga. Com Glória Pires, Kadu Moliterno, Marcos Palmeira, Jackson Antunes, Zezé Polessa, Cristiana Oliveira e Bia Seidl.
Tangerine Girl (1997) - Curta-metragem dirigido por Liloye Boubli. Com Karla Manso, Cláudia Mauro, Paulo César Grande, Emiliano Queiroz, Fernanda Quinderé e B. de Paiva.
Memorial de Maria Moura - Longa-metragem em fase de filmagens. Direção de Leilany Fernandes. Com Dira Paes, Maitê Proença, Jorge Dória, Ângela Leal, Ludmila Bayer e Paulo Vespúcio.
O Quinze - Longa-metragem em fase da captação de recursos. Direção de Aurora Duarte e Jurandir Oliveira. Atores convidados: Emiliano Queiroz, Chico Diaz, Karina Barun, Perry Salles e Maria Fernanda (ainda sem confirmação).
João Miguel - Longa-metragem em fase de captação de recursos. Roteiro e direção de Jurandir Oliveira.
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