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Vida literária em formação
Cecília Cunha, Professora
[17 19h41min]
É consenso que Rachel de Queiroz nasce literariamente com a publicação de O Quinze. Entretanto, até sua escrita romanesca estar consolidada, há uma rica experiência de vida literária que teceu o perfil artístico da escritora e da mulher pioneira na história brasileira.
Os escritos jornalísticos da Rachelzinha são vistos aqui como "laboratório'' para a elaboração ficcional. Nestes primeiros escritos de mocinha, Rachel de Queiroz desenvolveu alguns recursos ou técnicas do fazer literário e esboçou assuntos que estariam presentes em sua obra posterior. É a gestação da escritora.
À Rachel de 16 anos foi entregue, com remuneração, a página literária Jazzband do jornal anticlerical O Ceará. Rita de Queluz, seu pseudônimo, tinha como tarefas organizar, selecionar colaboradores e escrever crônicas, poemas, artigos. E aí, surge a narrativa em folhetim A história de um nome, publicação de meados de 1927, vista por alguns críticos como sendo um romance folhetim e por outros, uma novela.
O folhetim, composto de sete capítulos, é iniciado com o espanto da narradora ante a transformação do nome Rachel, escrito na folha do caderno: "... vi o R, o A, o C e demais letras tomarem, respectivamente, as formas de cabeça, tronco e membros de um corpo que, cruzando as pernas e erguendo um braço, numa gesticulação affectada, assumia a pôse de um conferencista em plena actividade". Assim, o nome Rachel feito gente, personificado, passa a contar sua história aventuresca. A primeira é da Rachel, filha de Labão, amada por Jacó. O texto bíblico é modificado, jocosamente com adjetivação excessiva, realçando a beleza e bondade de Rachel, e pintando a antagonista irmã Lia, como "gorda'', "estrábica'', "sardenta'' e "diabólica''.
No segundo capítulo, narram-se histórias rápidas em Israel e no Egito. E aproveita para lamentar a pouca significância de sua encarnação: "Não me proporcionavam as emoções que exigia o meu espírito de nome romanesco / Leva uma vida de incrível monotonia: nascer, casar, procriar, morrer."
Em busca de vidas grandiosas, do terceiro ao quinto capítulo, passamos à Idade Média. Conta-se então a história de amor entre a filha de um ourives com o filho de um nobre francês, tendo como pano de fundo as Cruzadas. Do feudalismo português, temos a vida de uma freira, morta de tuberculose. E ainda o nome encarnado na vida de uma filha de camponês, que, ao lado do primo amado, se aventuram em busca de riqueza por terras além mares.
No sexto capítulo, estamos no Brasil colonial, Pernambuco. Enredo cheio de maldade da filha de um senhor de engenho, a Nhã-Nhã Rachel, impiedosa com os negrinhos.
Quanto à sétima parte, temos a "personagem irreal'' do romance Moço Loiro, de J. M. de Macêdo, motivo de ironia e risos por seu abusivo romantismo. E para fechar o folhetim, o Nome - garatuja falante - volta-se para a Rachel, menina escritora.
Em História de um nome, visto aqui como exercício de invenção literária, há pitadas de ficcionalidade, com linguagem simples e despojada. Mesmo tendo uma precária elaboração artística, até visto pela autora madura como "uma droga'', a argúcia está em centrar-se sobre si mesmo o olhar do leitor. Crônica de si mesma - ao invés de romance ou novela, pois não há grande fôlego textual - as pequenas criações ficcionais transitam para alinhavar as ``heroínas - Rachéis'' de uma história que é coletiva e, principalmente, muito pessoal.
Folhetim marcado pela pulsão narcísica - beirando a conversa fiada, despudorada - é vista aqui como pretexto literário para afirmar-se no cenário cultural. Ou melhor, tentativa por meio da qual ensaia, no sentido mais amplo da palavra, a romancista e suas representações femininas - Conceição, Guta, Dôra ou Moura -, personagens basilares de sua prosa romanesca. Nesta perspectiva, Rachel de Queiroz antecipa, em História de um nome, o assunto que será a marca de sua produção literária: a própria mulher. Isto é, ao percorrer momentos da história da humanidade, buscando reter a personagem a Rachel de Queiroz, assinala-se a busca de trazer à tona personagens femininas - populares, relevantes ou monumentais -, abrindo as asas da imaginação para a posterior criação de Conceição, aquela de O Quinze!
Cecília Maria Cunha é pesquisadora e professora de Literatura. Atualmente ensina na EEFM Dragão do Mar.
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