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Jóia rara do sertão
Pelas margens, da nascente à foz, uma viagem-aventura de quase nove mil quilômetros mostra as várias faces do maior rio genuinamente brasileiro, o São Francisco, e do centenário projeto de transposição das águas para o Nordeste.
Ariadne Araújo
[30 18h04min]
O italiano Américo Vespúcio conferiu o calendário: 04 de outubro de 1501. Portanto, dia de São Francisco. Ele, então, não teve dúvidas. Com a pena, marcou um xis no mapa ainda inacabado dos acidentes geográficos brasileiros e batizou com o nome do santo o ponto exato da foz de um rio novo, em plena corrida para o mar - hoje, divisa entre Sergipe e Alagoas, no litoral do Brasil. No alcance da luneta, o rio parecia para Vespúcio mais um entre tantos que deviam ser mapeados pela expedição de reconhecimento das potencialidades das terras recém-descobertas.
De lá para cá, o São Francisco - o 18° do mundo em tamanho e o maior genuinamente nacional - conquistou importância, motivou disputas, gerou riquezas, atraiu cobiças, alimentou cidades, irrigou grandes plantios, gerou energia para o Nordeste. De Minas Gerais, na Serra da Canastra, onde nasce, ele atravessa o cerrado da Bahia, o semi-árido de Pernambuco, até Alagoas e Sergipe, onde cai no mar. Numa rede de 36 afluentes, são 2.700 quilômetros de estrada d'água, numa vazão média de 2.800 metros cúbicos por segundo. Todo o vale, no entanto, soma uma área de 640 mil quilômetros quadrados - equivalente à superfície da França e Portugal juntos.
Por ligar uma região à outra, ganhou frase de efeito: rio da unidade nacional. Mais do que nunca o apelido parece cair como uma luva. Adaptado e de cara nova, volta à cena o antigo projeto de transposição das águas do São Francisco - por ordem de Dom Pedro II, entre 1852 e 1854, o engenheiro Henrique Halfeld fez o primeiro estudo técnico sobre o assunto. A idéia central é ainda a mesma, trazer de onde tem, levar para onde falta. Em épocas de seca, o rio seria a garantia de uma caixa d'água para cinco estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí, Paraíba e Pernambuco.
A discussão, no entanto, não se arrasta há quase 150 anos em vão. Como num cabo-de-guerra - em jogo a sobrevivência do rio, os interesses políticos dos estados e o abastecimento de regiões sem água -, o São Francisco é disputado, como jóia rara. Dessa vez, ao que parece, o sonho de Ícaro do imperador brasileiro perde a pecha de megalômano. Torna-se possível e necessário face ao debate mundial e local em torno da redistribuição da água potável. Para os ribeirinhos e políticos de estados doadores, é a sentença de morte do rio. Para os nordestinos do semi-árido, é salvação da lavoura e torneira pingando em épocas de seca. Simples e difícil. O escritor Fernando Pessoa, então, se diria confuso diante dessa dupla existência da verdade. (Ariadne Araújo)
O caminho da piracema
Nem vimos a mãe-d`água, mas foi puro encantamento. Na busca ao coração do maior rio totalmente brasileiro, o São Francisco, a viagem em ritmo de aventura começou pelo fim, caminho inverso ao da correnteza, como uma piracema de gente rumo às cabeceiras. Da foz, no deságue para o mar, na simpática Piaçabuçu, em Alagoas, à nascente, no Chapadão da Zagaia, no alto da Serra da Canastra, em Minas Gerais - 2.700 quilômetros de festa para os olhos, ouvidos, coração. O São Francisco desce comprido, sinuoso, vezes raso, vezes fundo, depois largo, ali estreito, horas um oceano, horas tímidas cascatas. A equipe - repórter, fotógrafo, motorista - comeu a poeira do barro vermelho do cerrado, passou a mil por hora em pleno território de plantadores e traficantes de maconha, subiu serras íngremes, desceu por estradas cortando paredões de rocha, descobriu recantos longínquos e parados no tempo. Em toda parte, no entanto, o rio. No vale, ele é a alma, a vida, a bênção. Em berço esplêndido, enche a vista. Mas há muito mais do que mostra o olho. É também bicho ferido, surrado, a natureza em agonia - poluição, desmatamento, erosão. Sendo assim, foi irresistível - provamos da água. Em algum lugar, então, a sereia sorriu, pois o trato está feito: é volta certa! Tomara, tomara, dizíamos nós. Sob o canto do São Francisco, somos novos peregrinos. (AA)
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