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Rio São Francisco Fortaleza,
A briga com o mar

Na foz, onde as águas verdes do São Francisco se encontram às azuis do Atlântico, os Caeté fizeram sua casa. Para eles, o rio era Opara e o lugar Piaçabuçu. Hoje, a última cidade banhada pelo rio, na divisa entre Sergipe e Alagoas, vive do turismo e assiste impotente às mudanças na natureza.

Ariadne Araújo

Jangada de vela quadrada: tipo de embarcação tradicional do São Francisco que lembram asas de borboletas

[30 18h04min]

Para Américo Vespúcio, São Francisco. Para os índios, Opara - tão grande quanto o mar. Isso significa que, bem antes das lentes curiosas do navegador estrangeiro, olhos nativos já haviam se abismado com a força e o tamanho do rio. Ali, na foz, onde as águas escapam para o Atlântico, o italiano a serviço do rei português nem precisou pôr os pés calçados por ricas botinas. De longe, achou o país ameno, viçoso e de boa aparência. Mas, por certo, algum Caeté atento avistou a frota em um ponto qualquer entre a praia a risca do mar. A bem dizer, já na porta de casa.

O rio era grande e as palmeiras também. Então, para os Caeté, o lugar não podia ter outro nome: Piaçabuçu. Na última cidade banhada pelo São Francisco, hoje a vida gira em torno do turismo. Sendo assim, num barco a motor, a guia Quitéria Santos, 18, trabalha duro. Em direção ao dedo indicador que ela levanta no ar, a ilha da Fitinha - história de amor, conta ela. Uma moça, um amante proibido, encontros fortuitos em horas combinadas, tendo como sinal nada mais que uma fita colorida em galho de árvore. Na ilha da Criminosa - história de morte, conta ela. Um marido, uma esposa traiçoeira, crime e paixão em meio às águas agitadas de um verde do rio medindo forças com o azul do mar.

Entre Sergipe e Alagoas, o barco navega pela divisa, num barulho monótono do motor - tó-tó-tó-tó. Na ilha do Cabeço, Quitéria avisa: na queda de braço com o mar, o rio perde. O visitante, então, desconfia. Ondas - altas e quebradiças - balançam o barco para lá e para cá. O ilhéu Cláudio da Conceição, 25, diz o que significa. Nos últimos anos, o volume de água que passa por ali caiu e o mar, então, invade o leito do São Francisco. Ano a ano, ele viu a maré engolir a Cabeço, pelo menos quatro arruados. Entre os casinholos de taipa que sumiram sob as águas, inclusive, a igreja de alvenaria, o cemitério, a delegacia. Só o velho farol, metade da torre sob as ondas, ainda espia a paisagem assombrada: no chão, raiz à mostra, apodrece o coqueiral da praia.

Em sentido contrário, passam frágeis jangadas de vela quadrada, quase asas de borboleta prontas pra voar. E, estranho, o remeiro, força no braço, a açoitar sem dó o rio. É pra espantar o peixe, tangê-lo para a rede de pesca, explica Cláudio da Conceição. Nos último tempos, haja surra nas águas porque o peixe anda sumido. Culpa das mudanças no ritmo natural do rio, completa ele. Por trás dos pés de aninga, a jangada some da vista ao circundar a ilha. Mas o assunto da pescaria ruim é coisa pra ficar. Por quilômetros, em toda a extensão do rio, a denúncia se repete. Além dos anzóis n`água, hora de botar a boca no mundo e tentar fisgar saídas para o problema.

Os primeiros conflitos
Depois da mirada de Vespúcio, era só uma questão de tempo. Os Caeté, os Ubirajara, os Tuchá, os Tupinambá, os Tupuia, os Amaiporá, os Cariri, os Caipó habitavam soberanos o vale do São Francisco, mas algo estava a caminho. Em 1549, na comitiva de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, desembarca na Bahia, o português Francisco Garcia d'Avila, o primeiro senhor da Casa da Torre e precursor dos bandeirantes. Nas caravelas, gado. Completos e reunidos assim, os ingredientes para um conflito que durou quase cem anos.

Para não estragar os canaviais, o gado precisava sair do litoral e ser tangido para o sertão, de preferência seguindo os leitos do rios. Então, era matar dois coelhos de uma só vez. O rebanho teria terra e água para crescer e Portugal iniciava o processo de colonização no Interior do Brasil. Fazendas de gados foram, aos poucos, tomando cada vez mais terras dos índios.

A partir de 1600 chegam as missões religiosas. No São Francisco, os assentamentos missionários, no entanto, logo descobriram um grande inimigo: os d'Avila. Por ordens reais, donatários e sesmeiros tinham que entregar uma légua de terra para cada missão. Mas é claro que na longínqua colônia vencia a lei do mais forte. Segundo a arqueóloga Gabriela Martin, a atual área indígena dos Pankararu, por exemplo, foi uma missão.

As ruínas de algumas dessas missões eram visíveis antes da formação dos reservatórios das hidrelétricas, seja nas margens ou nas ilhas do São Francisco. Rodelas, Pontal, Pambu - nomes que lembram a obra missionária na região. Em 1768, as ordens reais eram para dar nomes portugueses às novas vilas - Belém, Santa Maria da Boa Vista, Bom Jesus e Porto Real do Colégio. Outras, no entanto, mantém até hoje seus nomes indígenas, como Cabrobró, Orocó, Tacaratu. (AA)

O gado e o ouro
Da alta madrugada ao pôr-do-sol. Descendo o São Francisco, mestiços ribeirinhos empurram suas balsas ou ajoujas. No peito, a chaga típica do trabalho, ponto de apoio para longos e pesados varejões - entre 4 a 5 metros e 20 a 25 quilos - que tocam com a ponta calçada de ferro o fundo do rio. Hora a hora, a ferida aumenta com um novo toque, mas o remédio é um velho conhecido. O abcesso é cauterizado com toucinho em ebulições. Pelo rio, de Juazeiro a Pirapora, a viagem dura um mês. A carga é preciosa: de um ponto a outro, gado.

Depois, já no século XVII, a notícia de ouro na região das cabeceiras do São Francisco se espalhou como vento. Para o vale, um enxame de exploradores, aventureiros, desempregados. O rio se firma, então, como importante estrada, abastecendo de carne e outros gêneros os homens das minas. Na boca do povo, é chamado de Caminho Geral do Sertão.

Lavadouras e máquinas hidráulicas foram levadas e em alguns casos o curso do rio era desviado artificialmente para outro canal ou represado, expondo o leito para a exploração. Com o tumulto na área, a Coroa decide, em 1701, fechar a estrada do São Francisco. A ordem era passar apenas os que obtinham um passaporte assinado pelo governador-geral. É claro, pelo rio continuaram passando centenas pessoas e exploração continuou. (AA)

Primeira idéia - A primeira manifestação em favor de uma transposição de água do rio São Francisco para o semi-árido do Nordeste data de 1847, foi apresentada pelo deputado provincial e Intendente da comarca de Crato, no Ceará, Marcos Antônio Macêdo. Ao governo imperial, ele encaminhou expediente indicando "a inevitabilidade de um canal tirando do rio, no Lago da Vila de Boa Vista (próximo à atual Cabrobró) para comunicar o rio Jaguaribe, pelo riacho dos Porcos e o rio Salgado".

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