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Água rasa e peixe escasso
Com as barragens de Sobradinho, Paulo Afonso e Xingó, a Chesf controla hoje as vazões do São Francisco. Sendo assim, está alterado o regime natural do rio. Para os pescadores artesanais do vale, um desastre para o setor: o peixe, antes abundante, praticamente sumiu e os bancos de areia formam ilhas ameaçadoras.
Ariadne Araújo
[30 18h04min]
A lembrança pega o velho pescador pelo pé - menino, perseguia piabas com tarrafinha de malha miúda. A brincadeira era boa e ainda rendia moedas. Antônio Gomes dos Santos, 68, então, ajudava no sustento de casa. No tempo, ele viaja. Os olhos baços pela catarata pairam sobre o rio, antes tão cheio de movimento, no vai-e-vem de navios que levavam e traziam arroz, milho, inhame, algodão, açúcar, café. A coisa mais linda do mundo, ele diz - voz de saudade da antiga Penedo (Al). Eram centenas de canoas-de-toldo, grandes chatas à vela e vapores a apitar para o povo, em burburinho e barulho, como se todo dia fosse festa.
O amigo de pescaria Edézio Ataíde Vieira, 58, dá o testemunho. Por dez tostões, viajou de vapor. Junto, uma carga de verdura e animais. Tudo isso nem faz muito tempo, diz. Quando foi, ô Toinho? Faz 40, 50 anos? Mestre Antônio não se dá ao trabalho de somar as décadas. Responde à pergunta que ainda não foi feita: hoje o rio é um prato raso, cheio de bancos de areia e solidão. Agora, na obrigação diária da travessia de carros pequenos e moradores, só a balsa vai de um lado a outro, de Penedo a Passagem Velha ou vice-versa. Ataíde Vieira corrige. Não é bem assim. Até a balsa tem dificuldade em passar, "faz um arrodeio, mais um pouco e não consegue".
De cabeça, Antônio dos Santos faz outra conta: mais de 20 espécies de peixe já sumiram. Transposição??!!! "É descobrir um santo para cobrir outro''. Segundo ele, desmataram a nascente, as várzeas, poluíram a água e o rio baixou pelo menos meio metro. Para comprovar o que diz o amigo, Ataíde Vieira bota o barco na água e, em meio ao espanto dos visitantes incrédulos, pula para um banco de areia, invisível para olhos sem experiência no ofício. O São Francisco, então, é como um córrego que passa manso em meio às canelas do pescador. Sob os pés, a terra que se acumula vira ilha, cria lodo, impede a navegação.
Na beira da praia do rio, ele pára o barco. Às voltas com uma rede de pesca, Paulo Lemos Neto, 60. Por causa do lodo colado nos fios de nilon, ele anuncia o desastre: três dias sem trabalhar e prejuízo no orçamento. Só quando a tarrafa secar ao sol e o material orgânico soltar, tudo volta a ficar bem. Por enquanto, adverte Paulo Lemos, porque isso é coisa fácil de acontecer de novo. Queixas sobre pesca ruim também tem Filadélfio Gomes, 65. Para atrair a presa, ele assa em forno apetitosos bolinhos de pó de arroz, prato predileto dos famintos camarões do São Francisco. Dentro de uma ratoeira - feitos de cipó, são conhecidos na região como "covo" -, os quitutes aguardam freguês. "Hoje tá bem mais difícil".
Tráfico, feira e romaria
Tudo passa pelo São Francisco. Aqui e ali, barreiras da Polícia Militar de Pernambuco avisam do perigo: área de traficantes e plantadores de maconha. Em outras palavras, vale a lei-do-cão. Finalzinho da tarde e noite fechada é risco certo de assalto na estrada. Todo cuidado é pouco, repete o dono da balsa Arapuã, Alfredo Antônio da Silva, 30, um pé em Barra de Tarrachil, na Bahia, e o outro em Belém de São Francisco, em Pernambuco.
Na travessia diária, ele leva e traz cerca de 130 carros. "Sei lá o que eles levam. Quem é doido de perguntar?'. Oficialmente, em gigantescos caminhões, de Aracaju (SE) para o Ceará, Pernambuco, Maranhão e Piauí, passam laranjas, cimento, calcário. Na volta, madeira, telhas, blocos de pedra. "É a porteira do Brasil'', completa.
Alguns quilômetros rio acima, a pequena cidade ribeirinha Xique-Xique (BA), parece ser o centro do mundo às quartas-feiras. É a feira mais famosa da microrregião. De barcos a motor, das ilhas e cidades circunvizinhas, chegam gente e carradas de alho, abóbora, cebola, coco. Um comércio de compra-e-venda, um burburinho a céu aberto sobre a lama das margens sujas e devastadas do rio.
Em Bom Jesus da Lapa (BA), não o rio, mas as grutas, às margens, são o espetáculo para milhares de romeiros. O ruge-ruge de centenas de ônibus a chegar e partir mistura-se a outro estacionado na praça principal - bancas de lonas e tábuas, umas pegadas às outras, ocupadas na venda de santinhos, terços, lapinhas, livretos de oração e uma infinidade de miudezas, disputadas aos empurrões pelos crentes emocionados pela visita às grutas do Bom Jesus. Lá fora, lambendo os paredões de rocha, o São Francisco corre indiferente ao atropelo. Da ponte, a caminho da próxima cidade rumo às cabeceiras, pode-se ver o rochedo, brilho incandescente ao sol de meio-dia. (AA)
Nascente atrai turistas
De queixo caído, o goiano José dos Ângelos de Oliveira, 61. Do alto do Chapadão da Zagaia, na Serra da Canastra, na cabeceira do São Francisco, em Minas Gerais, ele só tem uma coisa a dizer diante da beleza exuberante da cachoeira Casca d'Anta: ``muito decente''. Se é assim, está acertado, vai voltar pra contar ao povo distante sobre tanta boniteza. De ônibus, ele desembarcou em São Roque de Minas com um grupo de turistas. O passeio, é claro, ainda não terminou. Mais 23 quilômetros de serra e se chega à nascente.
A 1.300 metros acima do nível do mar - são 102 quilômetros de serra, 73 mil hectares sob a proteção do Parque Nacional da Canastra -, onde o capim alto do prado dobra com o vento, o tamanduá faz cama na touceira, banqueteia-se com imensas casas de cupim e passeia sob o canto do joão-bobo. Já o lobo-guará, arredio, não aparece assim, à toa. No ponto exato onde nasce o rio, a água brota do chão, formando riachos tímidos. Nos pés da estátua de São Francisco, marco da nascente, a oração do santo e restos de velas deixadas por devotos penitentes. (AA)
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