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Energia: produçào em balanço
O maior usuário do São Francisco, o setor energético, olha a transposição com cautela. Para a Chesf, esse novo uso do rio é a gota d'água que faltava para uma empresa que já trabalha com um potencial hidrelétrico esgotado.
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Canion Barra do Tarrachil, no rio Sào Francisco, na Bahia.
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[30 18h04min]
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) já fez e refez as contas. A transposição vai levar do setor algo em torno de 1,5% do volume disponível para geração da energia do Nordeste - o que equivale a 20% do que foi consumido no Ceará ano passado ou ainda o suficiente para atender 325 mil famílias de consumo médio por ano. Para a Chesf, a água é como combustível para uma máquina que atende a 14% do território nacional, 25% da população, 9 milhões de consumidores.
Sem sombra de dúvida, a maior usuária do São Francisco tem lá seus motivos para preocupação. O presidente da Companhia, Mozart de Siqueira Campos Araújo, explica: o consumo energético do País cresceu 5%, enquanto no Nordeste atingiu os 7%. "Assim, utilizamos cada vez mais a água que armazenamos''. Só o reservatório Sobradinho (BA) - a maior barragem do País - armazena 60% da água do rio. "Do ponto de vista hidrelétrico, o potencial do rio está esgotado. E a tendência dele, no futuro, é reduzir-se pela utilização de água para outros fins''.
Em audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, em fevereiro passado, Mozart Siqueira disse que a Chesf não seria um obstáculo em relação à questão dos usos múltiplos da água, mas "tem consciência de que vamos gerar menos energia elétrica''. Segundo ele, não fosse o São Francisco o Nordeste não teria saltado, nos últimos 50 anos, dos 2% do consumo de energia nacional para os 20% atuais. João Paulo de Aguiar, 62, assessor da presidência completa: os estudos e o amplo debate dão seriedade ao atual projeto, mas uma série de questionamentos ainda não foram respondidos.
Do volume retirado, quanto será para consumo humano, quanto para irrigação, para indústria e quanto vai se perder com evaporação? Na opinião de João Paulo, só a partir desse detalhamento é possível dizer com segurança: sou contra ou sou a favor. Hoje, 6% da vazão do São Francisco vai embora, evapora todos os anos. "Alguém terá que responder por essa demanda do mercado, cuja previsão de crescimento é de 6% ao ano''. O técnico chama a atenção ainda para o custo da água transposta, devendo ser adotadas medidas para proteger os pequenos proprietários rurais. (Ariadne Araújo)
Irrigação: de herói a vilão
Da nascente à foz, são cerca de 350 mil hectares irrigados. Para o presidente da Companhia de Desenvolvimento do Vale São Francisco (Codevasf), Aírson Bezerra Lócio, isso é pouco. A capacidade hídrica do rio suportaria ainda a irrigação em 800 mil hectares. O presidente do Comitê Executivo de Estudos Integrados do Vale do São Francisco (Ceivasf), José Theodomiro de Araújo, completa: a bacia tem 64 milhões de hectares e, desse total, pelo menos 4,2% - 2 milhões e 700 mil hectares - são terras boas para a irrigação, mas não há água para isso.
Os megaprojetos de irrigação são também megausuários do São Francisco. O cartão-postal de todos eles, é claro, concentra-se no pólo Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), vizinhas, quase gêmeas, ligadas por uma ponte, separadas pelo rio. Só do Mercado do Produtor, em Juazeiro - no gênero, o maior do Brasil - , saem cerca de 40 tipos de culturas diferentes com destino ao resto do Nordeste. O carro-chefe é a cebola, com 23 mil toneladas por mês, seguida pela banana com 14 mil toneladas por mês. Segundo o diretor-executivo, Aristófanes Carneiro Ribeiro, 51, são 70 mil toneladas comercializadas por mês. Isso significa três vezes o movimento da Central de Abastecimento de Salvador e duas vezes o de Recife.
Distante mil quilômetros de qualquer capital do Nordeste e a nove mil quilômetros do Norte do País, o mercado de Juazeiro cresce 30% ao ano. Nas margens das rodovias, já dá pra entender o porquê. Os perímetros irrigados têm se profissionalizado. Cléber Mendes Rosa Júnior, 38, engenheiro agrônomo do projeto Senador Nilo Coelho, em Petrolina, explica que só na área desse perímetro público de irrigação são 20 mil hectares plantados - correspondente à Região Metropolitana de Recife. São mais de 40 espécies diferentes de cultura - por exemplo, uvas plantadas em uma área do tamanho de 10 mil campos de futebol.
Como esse, ao longo do rio, a Companhia do Vale do São Francisco tem vários projetos. Os perímetros, hoje emancipados, foram entregues aos usuários - pequenos produtores e empresas. Para gerenciá-los, cria-se distritos de irrigação, uma espécie de empresa privada que opera, mantém e presta assistência técnica. Dessa forma, o distrito funciona assim como uma associação, um condomínio de produtores onde o elemento comum é a água. Ano passado, somente no Senador Nilo Coelho, foram 48 milhões de metros cúbicos de água, o suficiente para encher cerca de 5 mil carros-pipas. Além de usuários, os irrigantes têm sobre eles uma séria acusação: o carreamento para o leito do rio de fertilizantes, corretivos e biocidas agrícolas. (AA)
Primeiro estudo - Estudos técnicos detalhados foram desenvolvidos somente entre os anos de 1852 e 1854, quando o engenheiro Henrique Halfeld, por ordem de D. Pedro II, realizou levantamento detalhado do vale do rio. O engenheiro concluiu que era possível a transposição. Em 1865, o Barão de Capanema, liderando a Comissão Científica de Exploração, apontou a possibilidade de abertura de um canal para ligar o São Francisco ao Jaguaribe, no Ceará.
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