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Navegação vira história
Às margens do São Francisco, os imponentes vapores, antigas vedetes da navegação no rio, enferrujam. No passado, faziam o leva-e-traz de mercadorias e passageiros. Inclusive, em tempos de guerra, da Força Expedicionária arriscada de bombardeio por navegar no mar.
Ariadne Araújo
[30 18h04min]
Tão diferente dos dias de glória, no calçadão da praia de Juazeiro (BA), deslocado e mal-aproveitado, o Saldanha Marinho, primeiro vapor que navegou no rio. Trazido de guindaste para o espaço urbano, o navio virou, vejam só, pizzaria. Mas a história da embarcação está viva na memória de pelo menos uma moradora da cidade, a professora universitária Maria Isabel Pontes. Dos Estados Unidos, o navio foi trazido e montado em Barbacena (MG). Depois, em 1871, na viagem inaugural, de Pirapora a Juazeiro, na Bahia. A roda d'água em cachoeira, ele viajou até o começo dos anos 70. Agora, deriva à mercê de quem o alugue à Prefeitura.
Abandonado também outro velho vapor, o Benjamim Guimarães. Em Pirapora, em Minas Gerais, ele foi duas vezes tombado - pelo município e pela União -, mas aguarda a captação de verbas, RS$ 600 mil, para que tenha um final melhor que o companheiro de navegação. Se tudo der certo, diz o chefe de Divisão do Patrimônio Histórico e Cultural de Pirapora, Cássio de Almeida Moreira, 40, teremos um museu fluvial. Para mais não serve. Nem mesmo para o leva-e-trás de turistas, numa viagem ao túnel do tempo. A mecânica muito antiga exige o consumo de mil metros cúbicos de lenha, de Pirapora a Juazeiro. "A lenha não é o problema, mas o motor é tão antigo que não resistiria mais".
Viagem assim, só uma ou duas vezes ao ano. A idéia é fazer um trabalho com a população ribeirinha em percursos curtos, de 8 a 9 horas. Uma espécie de biblioteca ambulante, espaço para exposições, oficinas de arte, debates sobre questões sanitárias e, é claro, lições de ecologia. Enquanto isso não acontece, o município e o governo federal gastam mais ou menos RS$ 10 mil por mês com a manutenção. Para manter respirando o único remanescente no mundo com propulsão à lenha, vale à pena. Segundo Cássio Moreira, o Benjamim Guimarães, construído em 1913, no Mississipi (EUA), navegou no Amazonas e em 1928 veio para o São Francisco. ``É um patrimônio do povo brasileiro''.
Um rio liga o Brasil
Na Segunda Guerra Mundial, o São Francisco foi uma alternativa segura para navios brasileiros em perigo de bombardeio pelos submarinos alemães. Pelo rio, então, do Leste e do Sul para o Nordeste do País, passam contingentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Por ali, também, centenas de brasileiros, recrutados para trabalhar como seringueiros na Amazônia. Depois, os trilhos da Central do Brasil encostaram na beira do rio e ele passou a ser o caminho para centenas de migrantes em busca de vida melhor em São Paulo.
O apito do vapor ainda emociona João Batista dos Santos, 66, o Guedes. Nesse ofício de marinheiro, ele já fez de tudo: moço de convés, taifeiro, despenseiro, praticante de prático, mestre fluvial, prático, piloto fluvial e, por fim, capitão fluvial. Em uma única viagem, o barco chegava a levar 600 passageiros distribuídos em cabines de primeira e segunda classe, acomodados em redes, distraídos entre jogos e conversas no convés. Apesar do ambiente romântico, o velho mestre sabe dos perigos que se passava na época. Encalhe em muitas das ilhas do rio, incêndio ou ainda febre tifóide entre os passageiros.
Waldemar Santos, 72, o Binga, lembra que os vapores iam lotados, cargas de sal, rapadura, toucinho, como um mascate gigante. Naquele época, lembra o velho contramestre, o barco era a comunicação entre as populações ribeirinhas e o mundo - um misto de médico, conselheiro e comerciante. Hoje, tudo mudou. Como numa rodovia federal, no raio de visão do marinheiro, placas indicam onde o rio está mais raso, onde há risco de navegar, onde dobrar. São os sinais do tempo que levou para sempre a era dos vapores do São Francisco. (AA)
De carga a turismo - A barca Nina - transportava açúcar, sabão, biscoito, macarrão - subia o São Francisco, entrava nos afluentes, levando mercadorias. Hoje é utilizada para passeios turísticos aos domingos, deslizando sobre as águas tranqüilas, aqui e ali uma e outra ilha, entre Juazeiro e Petrolina. Segundo Luiz Rogério Rocha Pereira, 29, além da Nina, também recuperada a Santa Maria. De um lado a outro do rio, ela leva passageiros durante a semana. "Só falta a Pinta. Temos que comprá-la e recuperá-la'', diz ele. (AA)
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