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No limite hídrico
Tirar do São Francisco. Trazer para o Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí. Os defensores da transposição têm pressa. Para desequilibrar ainda mais o balanço hídrico do Nordeste setentrional, a possibilidade de uma nova seca já partir de 2002.
Ariadne Araújo
[30 18h04min]
Abaixo do necessário para possibilitar o desenvolvimento econômico e social. Para a ONU, assim está classificada a disponibilidade hídrica média do Nordeste semi-árido. Chuvas irregulares, temperaturas entre as mais altas do País (média superior a 26 graus centígrados), período médio de insolação de 2.800 horas anuais, evaporação cerca de três vezes superior à precipitação média e, para complicar, solos rasos (2/3 sobre base cristalina) e com poucos cursos de água perenes. Nessas condições, avança o processo de desertificação em muitas áreas. Destaque para o Cariri paraibano, o vale dos Inhamuns cearense, o Seridó capixaba e a região de Gilbés piauiense.
O polígono das secas conta hoje com mais de 25 milhões de habitantes, dos quais cerca de 12 milhões estão no semi-árido setentrional, hoje o maior bolsão de pobreza do País. Desse total, pelo menos 8 milhões de pessoas poderão ser beneficiadas com o projeto de transposição das águas do São Francisco. As previsões futuras para essa área já castigada, no entanto, não são boas novas. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe, universidades Federal de Alagoas e de Sergipe, não descartam a possibilidade de uma nova seca a partir de 2002.
Como a demanda pela água aumenta em progressão geométrica - em função do crescimento demográfico e do processo de urbanização acentuado -, o problema pode ser bem maior que nos anos anteriores. A Paraíba serve de exemplo. Em termos de precipitação pluviométrica, a seca de 1932 foi mais severa que a de 1993. No entanto, os efeitos sócio-econômicos desta última foram mais devastadores, apesar do Estado dispor de mais mecanismos. É que a demanda em 32 era infinitamente menor: 35 municípios contra os 253 atuais.
Ela se repete de oito a dez vezes por século e pode se prolongar por três, quatro e até cinco anos. O fenômeno da seca no Nordeste, estudado pela Sudene no período de 1911 a 1981, mostrou que sua incidência basicamente se deu na região do semi-árido, atingindo 1.351 municípios e 76% da população nordestina. Sendo assim, segundo um relatório do grupo de trabalho destinado a tratar da transposição do São Francisco, na Câmara Federal, se deixada apenas à conta da natureza, o balanço hídrico do Nordeste setentrional jamais voltará ao equilíbrio. O ano de 2002 será o momento em que a discrepância entre as curvas de oferta e de demanda se tornará definitiva e sem volta. (Ariadne Araújo)
Escassa para todos
Nos debates sobre transposição, os dados mundiais impressionam. Segundo a revista Science (1996), nos próximos 30 anos a escassez de água gerará conflitos regionais. Já em 2025, a população do mundo crescerá 45%, alcançando a casa dos oito bilhões. Enquanto isso, as reservas crescerão apenas 10%, afetando o meio ambiente, o abastecimento, a produção agrícola e industrial. Em função de sombrias previsões, o século XXI será o período da grande crise de água no Planeta. Nos primeiros 50 anos, todas as pessoas serão afetadas de alguma forma. Seja por escassez, por conflitos ou por poluição.
Mas, não é preciso ir tão longe. O problema já começou. Neste século, o consumo se multiplicou por sete, mais do dobro da taxa de crescimento da população (Unesco). Em 80 países, 40% da população já não tem água potável. Além de reduzida a água na Terra, ela é mal distribuída. Mais de cinco milhões de pessoas morrem por ano por doenças de veiculação hídrica. O Brasil é privilegiado - graças à Bacia Amazônica, tem 16% dos mananciais do mundo. No entanto, 72% dessa reserva brasileira está na região de origem, Amazonas, onde vivem 10% da população.
O Nordeste, com 30% da população, tem apenas 3% da água nacional - desse percentual, 70% vem do rio São Francisco, 6% é o rio Parnaíba e o resto se distribui pelos demais estados. Mas há ainda dois grandes vilões em meio a toda essa história: o desperdício e a poluição. Pelo menos 40% da água captada no País é perdida em vazamentos e quase todo os rios que passam em centros urbanos estão comprometidos. E isso não é só no Brasil. Nos Estados Unidos, milhões de pessoas bebem água contaminada por metais pesados, bactérias fecais ou substâncias químicas. (AA)
Biodiversidade - No meio da rodovia, sob o sol escaldante do sertão baiano, uma iguana. Em todo o vale, animais típicos da região estão sumidos. O jacaré, um dos terrores dos marinheiros no passado, vivem em cativeiros aqui e ali. Em um tanque, em Paulo Afonso (BA), dentro da área da Chesf, dois deles resistem ao tempo. Nas cabeceiras do rio, em Minas Gerais, já no Parque da Canastra, tamanduás, lobos-guarás, tucanos e gaviões vivem em liberdade e longe do homem predador. (AA)
Em campanha - Em 1984, o Ministro do Interior do governo João Figueiredo, o coronel Mário Andreazza, então postulante à candidatura para presidente da República, inclui a transposição em seu programa de governo. O desfecho adverso da campanha - foi derrotado, na indicação, por Paulo Maluf -, fez com que o projeto fosse arquivado por mais uma temporada. (AA)
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