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Rio São Francisco Fortaleza,
Custos e benefícios

A transposição do São Francisco não é uma obra barata. Com a interligação ao rio Tocantins, custa a bagatela de US$ 4,1 bilhões. Mas, nas contas do Governo Federal, o preço de transpor é bem menor que o de acionar a máquina da emergência em épocas de seca.

Ariadne Araújo


[30 18h04min]

A conta já foi feita. A transposição das águas do São Francisco vai custar aos cofres US$ 4,1 bilhões. No pacote, inclusive, a parte mais nova do projeto, ou seja, o reforço com a interligação do rio Tocantins. Na prova dos nove, melhor o preço de uma ação de caráter definitivo e benefícios contínuos aos gastos com programas de emergência: carros-pipas, cestas básicas, frentes de emergência. Em um ano de seca, calcula-se, o gasto é de R$ 3 bilhões. A isso, somam-se rebanhos dizimados, lavouras perdidas, doenças de massas, desajustes sociais e oportunidades perdidas.

Um prejuízo social que o relator do grupo de trabalho que estuda o assunto na Câmara Federal, Marcondes Gadelha, chama de incalculável. Enquanto o debate esquenta, estudos técnicos - viabilidade econômica, inserção regional, projeto de engenharia, meio ambiente e revitalização do rio - são concluídos. Só no orçamento desse ano, R$ 40 milhões foram previstos para pagar a fatura de empresas e técnicos contratados. Gasto na conta da transposição, mas são eles que viabilizam o projeto e funcionam como o fiel da balança na briga dos prós e contras.

A parte mais difícil, o Governo Federal já sabe qual é: driblar as resistências políticas à empreitada. Bahia, Sergipe e Alagoas são contra a transposição. Na trincheira, o principal crítico, o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Para conciliar interesses, a Câmara dos Deputados criou o grupo de trabalho com uma missão delicada: ouvir políticos e técnicos contrários e a favor da obra. Em junho passado, a comissão deu o veredito - "uma obra que não pode mais ser adiada e sua execução deve ser iniciada imediatamente".

Na área de influência da transposição, 200 cidades. Estima-se que a população nestas regiões deverá crescer de 6,8 milhões para cerca de 10 milhões de habitantes, em 2025. O governo ainda não sabe é de onde sairá o recurso. Dentre as alternativas: do orçamento da União e financiamentos externos através de agências internacionais de desenvolvimento - Banco Mundial financiou os primeiros estudos do projeto -, bancos privados, e convênios com governos. Em junho último, o governo anunciou também que utilizará o dinheiro da venda das Centrais Hidrelétricas do São Francisco (Chesf) para financiar a transposição.

Pronto para a obra
O Brasil - quinto maior construtor de barragens do mundo - está pronto, tecnicamente falando. Para transpor água do São Francisco até o Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte serão precisos 27 reservatórios (alguns já estão concluídos), 37 quilômetros de túneis, estações elevatórias e canais de captação. De dois pontos, a água vai para duas direções. De Cabrobró, em Pernambuco (50mß/s), sai o eixo Norte, 345 quilômetros até açudes como Castanhão, no rio Jaguaribe; Santa Cruz, no rio Apodi e Armando Ribeiro, no rio Piranhas-Açu. De Itaparica, Pernambuco (14mß/s), o eixo Leste, 333 quilômetros até açudes como o Poço da Cruz, no rio Moxotó (PE) e para o rio Paraíba (PB).

Nada disso, no entanto, é pra já. Se aprovado, o projeto foi concebido para um horizonte máximo de 25 anos. Isso significa que só lá pelo ano 2025 ocorrerá o bombeamento total da água, de acordo com a demanda das áreas beneficiadas. Assinado pelo deputado Marcondes Gadelha, o relatório do grupo de trabalho formado na Câmara dos Deputados explica que, por sorte, quando estia no Nordeste é época de muita chuva nas cabeceiras do rio. Segundo o documento, nem observadores mais atentos conseguirão detectar a olho nu qualquer mudança na lâmina do São Francisco. "Três por cento é menor do que a margem de erro dos instrumentos de medição mais precisos''. (AA)


Polêmica sobre a transposição

Ataque
- O rio está morrendo e não suportaria uma transposição.
- As populações ribeirinhas também sofrem com problemas de abastecimento e pequenas cidades situadas a menos de um quilômetro do rio não têm água para beber.
- Haveria perda significativa na geração de energia elétrica, com queda no sistema produtivo e/ou elevação de tarifas.
- Uma espécie de cunha salina estaria se insinuando pela foz do São Francisco em conseqüência da instalação da Chesf, o que também teria acarretado a erosão no litoral sergipano, com o desaparecimento, inclusive, de uma aldeia de pescadores, a ilha do Cabeço.
- A Bahia precisa de mais água para irrigar cerca de 1 milhão de hectares em sua região.


Defesa
- A revitalização do rio São Francisco precisa ser feita, independente de haver ou não a transposição.
- Não há nada que impeça as comunidades de se abastecerem no rio São Francisco, a não ser a inépcia dos poderes locais.
- A própria Chesf já quantificou a perda de geração e entende que é pouco face à capacidade operacional da empresa. O déficit pode ser coberto com outras fontes de energia.
- Não existe a tal cunha salina. Pelo menos, não com as características impostas. Existe a cunha salina tradicional, que sempre ocorreu nas marés, muito antes da Chesf.
- O aporte adicional para irrigação dos novos projetos da Bahia exigiriam algo em torno de 500mß/s o que, nas condições atuais, é difícil de prover. A situação pode ser solucionada com as águas do Tocantins e barramentos em afluentes.


Projeto em debate - Em 1993, nova seca se abate sobre o Nordeste. O Instituto Tancredo Neves de Estudos Políticos resgata a idéia e os estudos sobre transposição - documentos sob a guarda do Banco Mundial - e promove em Souza, na Paraíba, um debate onde a proposta é reapresentada à sociedade brasileira. No mesmo ano, novo encontro é promovido, dessa vez em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), do qual resultou a "Carta de Fortaleza", entregue ao presidente Itamar Franco.

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