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Os "donos" do São Francisco
Na linha de frente, o ex-governador da Bahia e presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Convicto, ele é contra a transposição. Afinal, dentro da Bahia estão 45,20% da bacia do São Francisco. Em dois grandes blocos e em lados opostos, estão os estados doadores e os que vão se beneficiar com a água.
Ariadne Araújo
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Índios Truká fecham acesso à aldeia, que é cercada pelo rio
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[30 18h04min]
Em torno da polêmica, políticos, ministros, governadores, secretários e técnicos. Eu outubro passado, em palestra na Paraíba, o secretário de Infra-Estrutura Hídrica, do Ministério da Integração Nacional, Rômulo Macêdo, mandou um recado para os mais exaltados. Para ele, discute o projeto quem não o conhece ou não o entende. Segundo ele, essa não é a solução ideal, mas é uma alternativa que já vem sendo usada, inclusive no Brasil, para resolver problemas de desequilíbrios regionais. "O que parece estar havendo é uma discriminação perversa contra nós, nordestinos", concluiu.
A resposta veio ligeira. Segundo o presidente do Comitê Executivo de Estudos Integrados do Vale São Francisco (Ceeivasf), José Theodomiro de Araújo, o problema começou quando se pensou em fazer a obra sem o estudo de viabilidade e impacto ambiental. Para ele, é bom lembrar da existência de um documento do Banco do Nordeste, intitulado Caminho das Águas, que, entre outras coisas, apresentava um cronograma onde a elaboração do projeto era quase simultânea ao início das obras. "Agora, alguns poucos prejuízos que podem ocorrer à bacia do São Francisco certamente serão menores do que a solidariedade das populações do rio para servir ao Nordeste".
O rio é nacional, mas os estados por onde a água passa - em Minas Gerais estão 34% da bacia do rio, na Bahia estão 45,20% e o resto correndo entre Sergipe e Alagoas - estão preocupados. O ex-presidente da República e atual governador de Minas Gerais, Itamar Franco, vai logo explicando: geramos 70% das águas do São Francisco, nosso sentimento é de que ele é um rio mineiro, mas sabemos que não somos os donos dele. Segundo o governador, Minas Gerais apóia o projeto, mas quer sentar à mesa de discussões, de modo que não fique marginalizada ou discriminada.
Contra a transposição, foram sete questões judiciais, nas contas do ex-ministro da Integração Regional, Aluízio Alves - seis na Bahia e uma no Distrito Federal. "Todas recusadas pela Justiça''. As questões solicitavam liminares que proibissem o Ministério de elaborar o projeto. "Não podíamos fazer nem mesmo licitação''. Segundo ele, um mutirão, com "400 funcionários requisitados de outras repartições e com a autorização do presidente Itamar Franco, entregamos 228 volumes de todo o projeto básico de engenharia, inclusive, editais de futuras licitações. E é esse o projeto hoje em discussão".
Queda de braço
Enquanto Bahia, Sergipe e Alagoas, travam uma luta política de bastidores, os índios Truká estão dispostos a mais. Se for preciso, é caso de botar pra correr quem se atrever a tentar. Na ilha da Assunção, em Cabrobró (PE), onde eles moram, o rio São Francisco passa à esquerda e à direita. Ao meio, as nove aldeias Truká - descendentes dos Kariri - estão com as barbas de molho. Afinal, é de lá que os técnicos contratados pelo governo pensam em captar a água que virá pelo eixo Norte para o resto da região.
Aurivan dos Santos, 27, o Neguinho, fala pela tribo. "Essa é a consideração que o homem branco tem com a natureza", lembra ele, mencionando os recentes vazamentos de óleos em outros rios. Do São Francisco, eles tiram o sustento das famílias - pesca e plantio de arroz, feijão, macaxeira. "Eles vão revitalizar o rio? Na pergunta, revolta. Para Neguinho, o debate, em ano de eleição, serve para eleger políticos. "Se botar máquina aqui, a gente tira''. Para bom entendedor, meia palavra: "não temos medo de morrer. Morto já estamos".
Além dos Truká, os Tumbalalá assinaram manifesto à Nação contra a transposição, em outubro passado. Também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB-Nordeste 3), a Comissão Pastoral da Terra (CPT/BA/SE) e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese).
Pioneiros no mundo
Os chineses talvez tenham sido os pioneiros. Milênios antes de Cristo, realizaram obras no rio Amarelo. Na Mesopotâmia e Egito antigo, transposições levaram água do Tigre, Eufrates e Nilo para áreas desérticas vizinhas. Mas foram os romanos que se destacaram como notáveis engenheiros hidráulicos, com a construção de aquedutos com até 300 quilômetros de extensão.
Mais atualmente, o exemplo pioneiro de transposição de bacias é o do rio Colorado, que possibilitou o desenvolvimento do oeste e centro-sul dos EUA. Atualmente, vários projetos de interligação de bacias viabilizam a utilização de regiões áridas e semi-áridas na Espanha, México, Peru, Argentina, Israel, Egito, Canadá, Índia, Paquistão, Irã, China, Quênia, África do Sul e Lesoto. No Brasil, projetos de transposição também não são novidades. Entre outros, o transporte de águas dos rios Paraíba do Sul e Piraí para um reservatório no Ribeirão das Lajes, no Rio de Janeiro. No Ceará, a capital Fortaleza vem sendo abastecida por águas transpostas do Açude Orós, na bacia do rio Jaguaribe. (AA)
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