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Rio São Francisco Fortaleza,
Revitalizar o Rio

Intenso desmatamento nas margens, desmoronamento dos barrancos e poluição por coliformes fecais e metais como cádmio, mercúrio, zinco, chumbo. O rio São Francisco sofre os efeitos de um processo de degradação. Sob a encomenda do Ministério da Integração Nacional, o Plano de Revitalização Hidro-Ambiental da Bacia do São Francisco avalia a situação.

Ariadne Araújo

Com a pesca escassa, armadilhas de cipó e bolinhas de arroz para atrair os peixes

[30 18h04min]

Tratores ligados por uma corrente avançam sobre o cerrado. Atrás, um triste rastro - troncos caídos, galhos quebrados, destruição. A cena é a de um exército ao devastar um País. Não muito longe das margens do rio, os desmatadores têm pressa. Fogem da fiscalização dos órgãos ambientais e da revolta da população ribeirinha, já conscientizada. O São Francisco, então, sofre as conseqüências. Cada vez, a derrubada está mais perto. A mata ciliar, responsável pela proteção das margens, já não existe em 80% da bacia. Os barrancos de areia, sem sustentação, desabam para a água num assoreamento progressivo.

Para o plantio de soja e fabricação de carvão vegetal, o sacrifício da mata nativa. Por ano, a média chega a sete milhões de toneladas de carvão. Sob a encomenda do Ministério da Integração Nacional - são parceiros o Ministério da Ciência e Tecnologia, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologia Espaciais (Funcate) - , um estudo, o Plano de Revitalização Hidro-Ambiental da Bacia Hidrográfica do São Francisco, denuncia muito mais: cerca de 40% do carvão vegetal consumido pela siderurgia de Minas Gerais vêm do cerrado do vale do rio.

De cor, os barranqueiros sabem os problemas do rio. O desmatamento não é o único vilão. Tão grave quanto, a poluição. Pelos afluentes, descem das cabeceiras até a foz teores de coliformes fecais, cádmio, cromo, chumbo, amônia, ferro, manganês, fenóis, óleos, graxas e até arsênico - subprodutos na extração de ouro e outros minerais. O rio, é claro, tem uma boa capacidade de diluição e boa parte vai, junto com as águas, para o mar. Mas, segundo levantamento do Comitê Executivo de Estudos Integrados do Vale do São Francisco (Ceeivasf), os índices têm valores acima do permitido. Belo Horizonte, sozinha, joga 30% de seus dejetos no Arruda e no das Velhas, dois afluentes do rio.

A capital mineira não está sozinha nessa. Mais de 400 cidades do vale contribuem com água servida no rio. Para o presidente do Comitê, José Theodomiro de Araújo, um relatório do governo paulista diz tudo: "a recuperação ambiental e hídrica do São Francisco é condição inadiável e obrigatória para a implementação de qualquer plano de fomento socioeconômico regional''. Segundo o Plano de Revitalização, a elevada presença de fenóis registrados no rio é um indicador da intensidade da atividade de carvoejamento, resultado do alcatrão de madeira que condensa após ser liberado dos fornos, junto com a fumaça. (Ariadne Araújo)

Moeda de negociação
Nada oficial, mas o governo federal sabe que a revitalização do São Francisco é moeda de negociação na mesa que decide sobre a transposição. Em junho passado, durante audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, o secretário de Infra-Estrutura do Ministério da Integração Nacional, Rômulo Macedo, fez, inclusive, as contas: para fazer o saneamento de todas as cidades do Vale e também a recuperação do rio seriam precisos R$ 2,2 bilhões. Se tudo der certo, a idéia é trabalhar duro nos próximos dez anos em função da revitalização. É claro, antes um planejamento e uma gestão integrada dos recursos naturais da bacia.

Além de levantar problemas, o Plano de Revitalização - já encaminhado aos estados da bacia do São Francisco - aponta saídas. Replantio de matas das nascentes do rio, aumento da navegabilidade, disciplina e proteção da pesca, melhora no tratamento de água e esgotos de cidades ribeirinhas, implemento de ações de apoio às comunidades do vale. O diagnóstico - a equipe viajou 12 mil quilômetros pelo vale do São Francisco -, traz flagrantes, por exemplo, de frentes de desmatamento, da destruição nas margens fortemente erodidas, inclusive, sem coleta de lixo.

Perto do rio, mas sem água. O documento mostra ainda que as populações um pouco afastadas da calha principal não têm garantia de água para consumo. Sem rede de distribuição e estação de tratamento, expõem-se aos riscos de doenças, como a esquistosomose, que é endêmica em grandes áreas da bacia. A imensa maioria despeja seus esgotos in natura nos leitos tributários e no próprio rio. Em alguns pontos, o risco vem de depósitos de ``bota-fora'' das mineradoras. Com as chuvas, os depósitos são erodidos por pequenos cursos d'água que carregam para o leito principal sedimentos e metais. (AA)

Barrancos - Na beira do rio, de Xique-Xique a Barra, no ponto de travessia de balsa, o balseiro Walter Alves de Souza, 41, mostra os sinais de destruição das margens do São Francisco. Os barrancos, sem vegetação, desabam para a calha principal, deixando o leito mais raso. Em alguns pontos, novas ilhotas surgem em decorrência. (AA)

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