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Na dose certa e no tempo
Prof. Nilson Campos
[30 18h04min]
A transferência de água entre bacias é uma ação de gerenciamento que remonta a milênios. Registros históricos indicam a existência de um canal com cerca de 400 km de comprimento, 50m de largura e 2,0m de altura, na região da Assíria e Babilônia, há cerca de 3.000 anos. Hoje, grandes cidades como Nova Iorque, Los Angeles e São Paulo são abastecidas por importantes transposições. Nas transposições, geralmente, a obra de engenharia não representa um problema maior. As dificuldades residem nas condições ambientais, nas econômicas e, principalmente, nas políticas.
Atualmente, a confiabilidade dos suprimentos de águas de algumas grandes cidades do Nordeste, depende de grandes açudes. Isto porque, somente estes, por suas maiores profundidades, suportam as secas mais prolongadas. Mesmo assim, se a recente seca hidrológica (1996-1999) tivesse persistido mais um ano, teria deixado o Estado em situação extremamente crítica. Nesse contexto, uma grande vantagem da transposição seria prover uma fonte de água de alta confiabilidade.
Dessa forma, os açudes do Estado poderiam ser operados com menores tempo de exposição ao consumidor Sol e terem menores perdas por evaporação. Quais seriam, então, os grandes desafios? Seria o custo da obra? Provavelmente não. Trata-se de uma obra cara, porém, dentro das possibilidades do País. Seriam os impactos ambientais? Embora cuidados especiais sejam necessários, as medidas mitigadoras são conhecidas e dominadas. Uma dificuldade reside nos custos operacionais da transposição. No atual contexto, de custos e, mais acentuadamente, preços de energia crescentes, as águas transpostas, poderão ficar demasiadamente dispendiosas para alguns tipos de uso.
Uma dificuldade está no processo político. O debate binário pouco contribui. A transposição não é o bem, que resolverá todas as mazelas das secas e transformará o Ceará em uma Califórnia. Também não é o mal, destruidor do meio ambiente e das finanças do País, embora possa até interferir no bom humor do ministro da Fazenda. Tentar viabilizá-la como moeda de troca da privatização da Chesf, é dar um grande passo para inviabilizá-la. Iniciá-la com recursos que iriam para o Castanhão, é inverter prioridades.
E importante que a obra venha a ser construída, na dose certa e no tempo certo. Uma questão é: será agora o tempo certo? A prolongada seca recentemente vivida mostra que, no mínimo, deve-se buscar alternativas para aumentar as garantias do suprimento de água. A transposição está, certamente, inserida entre as possíveis alternativas. Quanto à dose certa, a decisão não está ao alcance de um único especialista, por mais iluminado que seja, nem de um único político, por mais prestígio que tenha.
Trata-se de uma decisão pragmática, resultado de colaborações entre técnicos, políticos e a sociedade. O projeto atual, comparado ao de 1985, já representa um avanço nessa direção. Concluindo, a Agenda 21 propõe, como ação para o desenvolvimento sustentável, "mobilizar os recursos hídricos, particularmente em zonas áridas e semi-áridas''. Dessa forma, não devemos ver a transposição de bacias como um tipo de obra ultrapassada. Devemos caminhar em direção ao consenso, pesando e ponderando diferentes alternativas, avaliando perdas e ganhos, enfim, negociando. Só assim poderemos ter a transposição na dose certa e no tempo certo.
Nilson Campos é professor da UFC e PhD em Gerenciamento de Recursos Hídricos
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