|
|
 |
|
 |
 |
 |
Riscos da Transposição
Clóvis Cavalcanti, Economista
[30 18h04min]
Se falta água no Ceará e parece que dela sobra no rio São Francisco, por que não fazer sua transposição do Velho Chico para os sertões cearenses (e também para os paraibanos e potiguares)? Populações numerosas, que querem cultivar a terra e precisam da água igualmente para suas necessidades básicas, espalham-se no interior semi-árido do Nordeste, enquanto, ao mesmo tempo, o longo rio São Francisco corta o Polígono das Secas como único curso de água perene dessa região. A intenção de transpô-lo (em parte, evidentemente) surge como solução "natural'', como saída para a escassez do líquido, alegrando as populações que possam se beneficiar da iniciativa. O modelo por detrás de tal proposta, porém, além de se nutrir de uma visão mecanicista do mundo, contempla somente um dado do complexo problema da vida no semi-árido da região.
Transpor um rio - ou parte dele, como no caso - não pode ser pensado apenas como um problema mecânico de engenharia, ou seja, tirar água daqui e pôr acolá. Um rio constitui mais que água deslocando-se por uma vala no solo. Trata-se de um ecossistema da natureza, de um conjunto orgânico, de um tecido complexo que tem vida e onde o todo é mais do que a simples soma das partes. Nesse sentido, a construção de barragens para a produção de energia, como ocorre de forma substancial no São Francisco, já constitui uma agressão ambiental grave. Fazer a transposição de sua água vai acentuar essa agressão.
Vale a pena lembrar aqui os problemas que, no mundo inteiro, têm sido criados por grandes projetos hidráulicos, seja para que finalidade se destinem. O caso talvez mais assustador a esse respeito é o do Lago (ou Mar) Aral, na Ásia Central, um corpo de água doce que já teve a metade do tamanho do estado do Ceará. Os dois principais rios que o abasteciam foram desviados para projetos de irrigação, aí por volta de 1960. Com isso, apenas 10 por cento da vazão que corria para o lago continuou chegando, fazendo com que sua superfície se reduzisse a menos da metade do que era, suas águas se tornassem salgadas e todas as suas espécies de peixes, todas - que faziam do Aral o mar interior mais piscoso da Terra - se tornassem hoje extintas.
Trágica, sob todos os aspectos, a saga desse grande lago - que se faz acrescer de um amplo elenco de efeitos malignos, como a forte salinização de solos, a perda de biodiversidade e outros resultantes da "salvadora'' irrigação - representa uma advertência que não pode ser ignorada.
A transposição do S. Francisco merece um encaminhamento sistêmico, integrado, envolvendo uma ampla lista de fatores, e não limitado apenas a um dado, a uma variável do problema complexo a ser resolvido. Se se busca uma saída para a limitação da oferta de água do Nordeste - que, a rigor, não chega a ser de nível devastador, exceto em períodos de secas prolongadas e em determinadas áreas -, por que não procurar soluções que se adaptem mais suavemente à realidade do nosso semi-árido? A esse respeito, existem experiências de aproveitamento dos recursos hídricos da região, em condições de sua falta extrema, como o faz o engenheiro José Artur Padilha em Afogados da Ingazeira, Pernambuco, através de uma "perfeita captura das contribuições gratuitas da natureza'' (insolação, ventos, chuvas, energia gravitacional, trabalhos biológicos da flora, da micro e da mesofauna, em combinação com o trabalho humano), com resultados notáveis. Pena que isto não sensibilize quem só pensa em obras grandiosas, que tanta alegria causam às empreiteiras.
Clóvis Cavalcanti é economista e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco
|
|
|
|
 |
 |
|
|
 |
|
|
[ctdi_Clima] Erro na 3ª linha : ('+') Erro em tempo de execução do IQSP: java.lang.NullPointerException
 |
|
|
 |
|
Digite login:
|
 |
|
|