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Rio São Francisco Fortaleza,
Peregrinação e consciência

Um ano de peregrinação. Seis mil quilômetros ao longo do rio, sempre com o mesmo objetivo: chamar a atenção da população para a importância do São Francisco e a necessidade de preservá-lo. Foi uma pregação nada ortodoxa feita pelo bispo da cidade baiana de Barra para conscientizar as comunidades ribeirinhas.

Ariadne Araújo e Fátima Sudário

[30 18h04min]

Morte e ressurreição. A simbologia do batismo está na gênese de uma campanha para salvar o rio São Francisco. Há oito anos, o bispo de Barra (cidade a Noroeste da Bahia, próximo a Bom Jesus da Lapa), dom Luís Flávio Cappio, 53, acompanhado de uma freira e dois leigos, decidiu percorrer o rio, pregando às populações ribeirinhas a necessidade de preservá-lo. Paulista de Guaratinguetá, dom Luís é um missionário franciscano e conhece bem a realidade das regiões mais pobres do País.

Há 26 anos vivendo na beira do São Francisco, dom Luís foi assistindo à destruição do rio e percebendo o quanto ele precisava ser ressuscitado. Inspirado ora no Velho Testamento, no qual o profeta descreve a visão de um rio saindo do templo e gerando vida por onde passava (Ezequiel, capítulo 47, versículos 1 a 12), ora em João - eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância (capítulo 10, versículo 10), o bispo iniciou uma peregrinação no dia de São Francisco (4 de outubro) de 1992, saindo da Chapada da Zagaia, na Serra da Canastra, lá onde o rio nasce, em Minas Gerais.

A pé, de barca e nos meios que o povo proporcionava, os quatro peregrinos percorreram seis mil quilômetros em um ano. Terminaram a caminhada no dia 4 de outubro de 1993 no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. De cidade em cidade, de localidade em localidade, falaram em igrejas, escolas, câmaras de vereadores, prefeituras, associações, grupos ambientalistas. "Falamos em todos os ambientes que nos abriam as portas. Utilizamos muito os meios de comunicação, eventos, manifestações, shows em praça pública...'


O POVO - Por que o senhor resolveu percorrer o rio São Francisco?

Dom Luís - Aprendemos com o povo a importância que esse rio tem para a vida e, com o povo, aprendemos a amar esse rio e vê-lo como o grande gerador de vida para toda essa população. Mas nós percebemos também que o rio estava num profundo processo de morte. A cada ano ele mostrava sintomas cada vez maiores de morte e nós achamos por bem fazer uma grande conscientização ao povo ribeirinho, sobre a importância do rio e a necessidade de preservá-lo. Surgiu, então, a idéia de uma caminhada, onde nós tivéssemos a oportunidade de estabelecer esse diálogo com toda população ribeirinha e que o povo, devagarinho, fosse compreendendo o rio como um grande dom de Deus para a vida deles e a necessidade de empreender iniciativas para sua preservação. Foi uma peregrinação religiosa e ecológica, no sentido de fazer o povo compreender que o rio é uma bênção, um presente de Deus para a vida do povo e, nesse sentido, ser preservado.


O POVO - Como o senhor foi visualizando os sintomas da devastação durante a peregrinação?

Dom Luís - Em várias frentes. Em primeiro lugar, o pior de todos, é o grande desmatamento no seu entorno. Os grandes desmatamentos nas áreas de nascente são uma condenação do rio à morte. Também a devastação das matas ciliares, que são aquelas na beira do rio, que protegem os barrancos e não deixam acontecer o assoreamento. Então o rio fica cada vez mais largo, cada vez mais raso e todo assoreado. Depois tem o problema da poluição. O rio hoje é um grande esgoto a céu aberto, seja dos dejetos sanitários das cidades e vilas à beira do rio que jogam seus dejetos direto no rio, seja também os dejetos químicos das indústrias lá na região de Belo Horizonte, do sudoeste de Minas, que é uma região bastante industrializada. Isso devagarinho vai matando o rio. Terceiro é o problema da irrigação. Não há nenhum gerenciamento das águas. Não que a gente seja contra a irrigação. De maneira nenhuma, mas não existe nenhuma administração da água tirada. Quer dizer: cada um pega o que quer, sem dar satisfação a ninguém. Isso não pode. Um outro problema relativo a esse modelo de agricultura é o uso de muito agrotóxico. Isso devagarinho vai indo tudo para o rio e envenenando cada vez mais as suas águas. Outro problema são os barramentos, as grandes e imensas barragens. Hoje a pesca é rara no São Francisco, que outrora foi um rio viscoso, cheio de peixe. As grandes barragens impedem a subida dos peixes para a desova e está acabando com a vida do rio, que também está se transformando em imensos lagos. No sub e médio São Francisco, aquela região que vai de Sobradinho a Paulo Afonso, o rio não é mais rio, são imensas represas, imensos lagos e isso favorece a evaporação da água e diminui o seu manancial. E agora esse último projeto, que eu chamo de louco, da transposição do rio, sem antes olhar para a revitalização do rio.


O POVO - Por que o senhor vê o projeto da transposição como uma loucura?

Dom Luís - Em primeiro lugar é um projeto que tem uma casca social: levar água para os pobres do Nordeste lá de cima. Uma casca social, que esconde os verdadeiros interesses que são políticos e econômicos. Segundo lugar: o projeto demanda um dinheiro muito elevado e um tempo grande de execução. A gente fica assim pensando `meu Deus, será que as próximas administrações terão a mesma determinação que o atual governo, será que não vai ser mais um projeto como aqueles do tempo da ditadura, como Transamazônica, que vai consumir dinheiro público e não chegar a lugar nenhum'. Não existe nenhum projeto social realmente sério de redenção, de desenvolvimento do povo onde o rio passa naturalmente. Se não conseguiram resolver o problema do povo onde o rio passa naturalmente, que certeza a gente vai ter que o rio vai resolver problema onde ele nem sequer passa? Terceiro, esse tipo de projeto demanda um consumo faraônico de energia elétrica. E quem é que vai pagar essa conta? O povo? O povo não tem condição. Então novamente é um projeto destinado às elites e para as grandes empresas, quem sabe até multinacionais.



O POVO - Mas é fato que o problema da escassez d'água nos estados mais ao Norte do Nordeste e que a transposição é necessária?

Dom Luís - Pra nós o que é mais importante e mais fundamental de tudo é que existem muitos outros projetos alternativos de pequeno custo, de gerenciamento mais adequado, sem problemas ecológicos, como a construção de tanques para armazenamento da água de chuva, construção de pequenos açudes, poços artesianos. Tem uma porção de pequenas iniciativas que solucionam o problema das pequenas comunidades, sem exigir esses investimentos faraônicos, mas o problema é que o modelo do nosso desenvolvimento, dentro dessa governança que está aí, não acredita nas pequenas iniciativas e atrás disso existe o lobby das grandes empreiteiras, que exigem que esses projetos sejam aprovados. Então nós acreditamos nos projetos alternativos, que já estão aprovados, testados e provaram sua eficácia. Então sou a favor desses projetos alternativos que realmente vão solucionar o problema da água, mas infelizmente não se investe nesses projetos pequenos, só se acredita nos imensos projetos que vão dar um grande dividendo para as grandes empreiteiras. Então é por aí que vai a nossa crítica. Pra concluir eu digo que anêmico não doa sangue. Se quiser que o rio São Francisco doe, garanta a vida dele. Então nós somos pela revitalização do rio em primeiro lugar pra depois pensar em levar água para outras regiões.



O POVO - O senhor avalia que a peregrinação de um ano falando às comunidades ribeirinhas surtiu algum efeito no sentido de conscientizá-las para preservação do rio?

Dom Luís - Sem dúvida. A gente acredita que a peregrinação foi uma virada de página. Acredito que, na história do rio São Francisco, a gente pode falar antes e depois, porque antes o rio estava aí e havia muito pouca consciência de preservação. Um exemplo disso é que tivemos no domingo (6 de agosto) a missa do Bom Jesus dos Navegantes, aqui na Barra, e, de repente, na hora das ofertas chegou um cidadão com quatro sacos de lixo querendo ofertar, dizendo `olha isso aqui foi a limpeza que eu fiz por Bom Jesus no rio dele'. É o tipo de iniciativa particular desse cidadão, que se sentiu solidarizado, foi na beira do rio e tirou o lixo. São milhares de iniciativas que vão surgindo, ali, aqui, acolá, umas mais organizadas, mais bem pensadas, outras espontâneas, e a gente vê que são fruto da peregrinação.

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