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Xô mau olhado
Do final do século XIX até meados de 1950 elas navegaram absolutas pelo São Francisco. Para espantar maus espíritos, as carrancas iam nas proas dos barcos. A origem, no entanto, remonta a povos primitivos que levavam em suas jornadas pelos rios e mares a cabeça de deuses e demônios para enfrentar o medo do desconhecido.
Ariadne Araújo
[30 18h04min]
Para espantar mau olhado, espírito presepeiro, mal-assombro e pescaria ruim: caretas. Na base do quanto mais feia melhor, o nome oficial é carranca. Na proa, esculpidas em madeira, um rosto assustador, são monstros temíveis cuja função é botar pra correr os mitos originários e residentes no São Francisco, como a Mãe-d'água e o Minhocão. De sobra, no passado, susto também para os indesejáveis jacarés, hoje extintos. Em algumas partes, as figuras de proa eram chamadas também de cara de pau ou leão de barca.
Seja que nome for, Roque da Rocha, 40, o Roque-Santeiro, trabalha dezenas delas em sua oficina do artesão, em Petrolina (PE). Da amburana, ele faz dois estilos: o vampiro e o cabeleira. O primeiro, um rosto mais assustador, é coisa da nova geração. Segundo ele, pesquisador sobre o assunto, o segundo tipo é mais original, com uma expressão mais suave. "Esculpir carrancas já não é boa coisa para um artista. Não dá retorno e tem pouca procura''. Roque Santeiro, no entanto, não tem do que se queixar. Como freguesa para uma careta bem feia, nada menos que a atriz Marieta Severo.
No ofício, toda a família de Paulo Roberto de Jesus Santos, 38, o Paulo Queimado. São cinco filhos, seis irmãos, duas cunhadas e a mãe, dona Alzira Maria de Jesus Santos, 63. Em Juazeiro (BA), numa puxada, ao lado da casa, um monturo de lascas de amburana mostra que o trabalho não pára. Sobre o monte, três gerações se encontram na produção de carrancas. A média é de 18 peças por dia. O destino é Porto Seguro, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. "Quando menos se espera pára um caminhão querendo 500 de uma vez só'', diz ele, explicando tanta pressa.
Também meio de vida, Ana Leopoldina dos Santos, 77, começou a fazer carrancas depois de uma promessa a Padre Cícero e, é claro, São Francisco. O marido cego antes pedia esmola na praça, mas agora ajuda a amassar a argila recolhida da margem do rio. As caretas de Ana dos Santos são, ao contrário dos outros, feitas de barro. "Pedi aos meus protetores que me arranjassem um meio de trabalhar e sobreviver. Pouco tempo depois deu um estalo, tive a idéia''. Além dela, duas filhas. "Elas querem continuar a tradição. Se eu for embora, o trabalho vai andando".
Contemplando o cânion
Alto do teleférico da Chesf, em Paulo Afonso (BA), balançando sobre o canion - 60 quilômetros de paredões de rocha, é o maior desfiladeiro da América do Sul e o segundo do mundo. O visitante avista lá em baixo uma gruta, a poucos metros do São Francisco. É a Caverna Furna do Morcego, esconderijo de, nada menos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Além de estratégia, bom gosto do cangaceiro, porque pertinho está a cachoeira de Paulo Afonso que, antes da barragem, produzia um espetáculo deslumbrante.
Segundo o guia João Alves, 53, o barulho das cascatas era tão alto que podia ser escutado a pelo menos 20 quilômetros. A 110 metros de altura, na viagem de bondinho por 330 metros, de um lado a outro do canion, pode-se ter uma idéia do espetáculo interrompido. João Alves lembra que, nos 50 anos de aniversário da empresa, a Chesf abriu as comportas da represa para uma comemoração cheia de saudade e espanto. "É assombroso. Não é possível descrever''. Depois, hora de nova subida. Dessa vez na torre de observação, um mirante de 30 metros de altura, onde o falecido engenheiro Amauri Menezes montou escritório.
De lá ele controlava o canteiro de obras. Com um raio de visão de 360 graus, quebrava a cabeça, entre outras coisas, para dar à barragem uma cor local. Por isso, por toda a parte, seixos tirados do leito do rio, móveis de cipó, pedras naturais do local. Já com os pés no chão, mais histórias. A visita de Dom Pedro II ao local, em 20 de outubro de 1859 - extasiado, deixa lá uma placa de bronze. E mais, a visita de Castro Alves - extasiado, deixou lá a poesia, como presente à natureza. (AA)
Causos e lendas - Pode ser conversa de pescador, mas há sempre um - Waldemar Santos, 72, o Binga, em Pirapora (BA), jura de pé junto - que viu o mais temido mito do São Francisco: o Nego d'água. A casa no fundo das águas do rio, ele domina a correnteza e os peixes. Mas, por azar, antipatiza os pescadores e barranqueiros. Um encontro é canoa virada, ondas surgindo não se sabe de onde, barreiras desabando, peixes fugindo, na certa. Fosse só isso, vá lá. Em Penedo (AL), diante do velho porto abandonado, Antônio Gomes dos Santos vai soltando as lendas do rio, uma a uma. Ele mesmo viu, certa feita, o presepeiro Nego d'água: nu e muito cabeludo, comia peixe e esquentava-se ao sol. Pior que isso só vendo, cara-a-cara, o Fogo Corredor. Também há o Minhocão, uma cobra gigante cujo diversão é apavorar barcos em noites sem lua. De mau humor, a coisa pode ficar pior: com o rabo, dá uma terrível pancada e manda a embarcação para o fundo. (AA)
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